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terça-feira, 27 de abril de 2010

Na Hora da Nossa Morte






Carlos


Marta


Professor Ramos


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Diário de Carlos


10.02.2015


Quando soar a minha hora derradeira que a morte chegue sem demora, esperar é sofrer, ninguém deseja morrer crucificado, fui indiferente a crenças toda a vida espero não me agarrar a nenhuma pelo terror. Não sei se existe um Deus misericordioso mas sei que nenhum anjo me guardou até hoje, seria absurdo que seja apenas na hora da minha morte que ele me venha buscar, armado com a foice.

Pensamos que as coisas sucedem porque assim as decidimos por livre arbítrio. Um dia, porém, sem sabermos porquê, olhamos ao nosso redor e tudo que vemos nada nos pertence, a cidade em que vivemos, a casa onde nascemos, o lugar onde trabalhamos, nada é nosso, nem o país, nem o mundo evidentemente. Somos apenas nós irremediavelmente. Sós. Somos apenas memórias. Somos apenas passado.




Se nos recordássemos de todos os dias, dias e horas e noites sonâmbulas, vigilantes, o filme das nossas vidas apresentava-se inteiro e contínuo, como se bastasse pressionar um telecomando e, mesmo assim, um filme ficcionado. Não possuímos tamanha capacidade. No meu caso esqueci uma boa parte da minha vida. Não apenas o que não me convém lembrar, mas o que me convinha de todo.


Recordo aquela viagem de não sei quantas horas quando apertado pelo aguilhão da fome entrámos em Espanha e desembocámos na rua principal da vila galega, para comprar um par de calças, é verdade, para o meu pai me oferecer o meu primeiro par de calças compridas, usávamos sempre calções, fosse verão ou inverno, quando éramos garotinhos, com uma abertura na juntura das nádegas, acredita, é quase do teu tempo, mas tu vivias na grande cidade, ou muito provavelmente não recordas, és mais nova, digo: eras mais nova; pois, foi exactamente isso, umas calças cinzentas, o meu pai só me perguntou «Gostas?» sem que parecesse decidir-se por outras se a minha opinião fosse contrária. Bom homem, bom pai, mas decidido. Exibi-me com o par de calças novo, as primeiras, já o disse, no cinema da cidade, todo pinoca, disfarçado de rapaz crescido, o mais sério semblante a condizer, com os meus sete anos a brilhar ingénuos nuns olhos castanhos, a devorar o primeiro filme, «Pinóquio», do Walt Disney e a sair para a rua com o coração a bater forte, a cabeça repleta de fantasias.


Era um embrião do que sou, do que me tornei, um rizoma, o esboço do meu temperamento simultaneamente fantasista e prático. Quando me conheceste o que viste em mim? Para além do físico, quero dizer. Falaste nisso muitas vezes. Disseste «Vi um rapaz decidido, todo prático, excelente nas matemáticas e que me oferecia uns versos inspirados», disseste tu. Dizias tu.


Diário de Carlos


20.02.2015


Quando a tua doença se declarou, quando todas as tentativas de cura se esgotavam, uma após outra, os teus cabelos a embranquecerem da noite para o dia, e depois a caírem em farrapos, tu encaraste a morte nos olhos e eu encarei a minha vida, passada e futura, como uma infinita tristeza. Não fui capaz de um único pensamento positivo. Durante a tua doença terminal e durante estes dois anos da tua ausência, nenhuma esperança, nenhuma alegria me visitou. Quase catorze anos de vida em comum, tornaram-nos cúmplices, tão próximos e às vezes tão previsíveis e semelhantes, que todas as minhas fugas hão de ter aí a sua explicação. E as tuas.


Estou aqui, à tua beira. Vejo-te definhar cada dia que passa, em cada visita diária. Abandono o trabalho a meio. Vale-me a antiguidade, que é um posto, e uma equipa solidária. Nos primeiros tempos da eclosão da tua doença choravas muito, comigo e sem mim, vulnerável, impotente para admitires o irremediável, por vezes a esperança nascia no teu ânimo como um clarão, um dia de sol, retomavas os teus projectos com uma vontade que me contagiava, cheguei a convencer-me de que a cura era possível, ter pensamentos positivos, esperança, dizem, cura mais do que os químicos, mas não, contigo não foi possível o milagre da mente.


Estou aqui e observo as pálpebras cerradas dos teus olhos que já foram bonitos, brilhantes, castanhos. Já foram quentes, iluminados pela tua inteligência arguta. Governavas a galeria de artes sem que o Bártolo conseguisse acompanhar a velocidade do teu raciocínio, dos teus argumentos a favor ou contra este ou aquele artista, esta ou aquela obra. Ele entrava com o capital, tu com a tua sagacidade. Gorducho, com rosto de bebé, mas fino e calculista, o Bártolo.


O Gonçalves ao telefone,” Quando é que começamos a pôrra da ponte?”. Um dia destes. Trago-a na cabeça toda acabadinha, mas não sai para o computador, os cálculos estão prontos. Falta a maqueta, pôrra!, pois, ok, está toda na cabeça, falta pouco. Pouco?? Achas pouco??


A palavra «merda» perfila-se prontinha para ser largada. Este gajo tem razão mas não deixa de ser o que é: um enorme chatarrão. Tudo pronto, a horas, é o prestígio da empresa, é o Tribunal de Contas, é o caraças. Tem razão o tipo. A ponte está prontinha, é só sair cá para fora, como Vénus do Oceano. Elegante como Vénus, apetecível como Vénus, provocante, desejosa de ser atravessada, penetrada, com os seus dois arcos inovadores, duas espirais, aparentemente frágil mas bem segura, ao mesmo tempo aberta e fechada, transparente e enigmática. As outras pontes que ajudei a desenhar ficarão no esquecimento, ultrapassadas por este projecto de uma vida, da minha, talvez eu morra, desapareça, perdurará como um testamento. Se o Gonçalves entretanto não correr comigo. A minha cabeça não consegue produzir outros projectos senão este. Cheia deste, vazia para tudo o mais. Vazia.






Diário de Marta


15.02.2015


O cheiro da doença enjoa, como o aroma fétido de um mar morto. Combato aquele veneno insidioso que me invade nestas noites na Urgência. Gisela não anda aqui. Gisela não pode andar aqui. As crianças dormem, ou choram, noutra sala. Gisela esteve lá, não está mais. Não quero deixar-me prender pelas algemas da memória. O turno nunca mais chega ao fim. Os velhos chamam a toda a hora, cheiram mal e queixam-se de tudo. Chegam à beira da morte, trazem o odor da morte, acabam aqui ou noutro lado. Resmungam, tossem, tossem de propósito, arfam como leões solitários e moribundos. Quando pela manhã regressar a casa, Gisela não estará à minha espera. Tem – porque disse tem?-, de ir para a creche, às vezes não a levo, não a levava, saia do turno, ficávamos as duas aconchegadas na cama, a empregada doméstica é que a fazia levantar, a contragosto, ‘Vamos menina! Até lhe faz mal tanta cama! Deixe a mamã descansar, vá!’


Não tenho sono. No tempo da Gisela andava sempre cheia de sono. Agora que precisava de dormir, não durmo. Dormir dois, três dias, sem parar. Reabrir os olhos e escutar a minha filha na sala a fazer traquinices, a meter-se com a empregada, ‘Menina, então? Deixe a Ermelinda trabalhar!’


Não quero pensar nisso, mas penso, o meu corpo pensa. Cerro os olhos, mal recostada numa cadeira dura pintada de branco não durmo um minuto sequer. Deixo-me vaguear, evitando fixar-me em imagens dolorosas. Os turnos são intermináveis, um espaço e um tempo de tortura. Quando batem à porta «Doutora, mais um!», levanto-me mecanicamente, observo o paciente, dou as ordens correctas, examino, prescrevo, mas sem vontade própria, como se andasse e agisse por instinto. Esqueço os nomes dos doentes. Escuto as queixas, mas evito as respostas. Não me aproximo. Aproximar-me é envolver-me demasiado. Do corredor, atravancado de camas, vem um choro quase murmurado. Sei de quem é, não atenderei, o que eu tinha de cumprir, já cumpri, não quero que aqueles olhos sofridos a clamar por socorro me acompanhem quando eu regressar a casa, não quero que a morte tenha um rosto.


Pela manhã executo os procedimentos habituais para entregar a vez ao médico que entra ao serviço, coloco o casaco sobre os ombros, não me despeço de ninguém, ouço vagamente despedirem-se de mim, intuo vagamente afecto e respeito nos cumprimentos, aconchego mais a mim o casaco na manhã fria, dirijo-me ao automóvel e parto.


Não encontro a empregada em casa. É claro, despedi-a há um mês. Não a queria ouvir constantemente a falar na Gisela. Um apartamento vazio é como uma cova. Estendo-me no sofá, já não é o mesmo do tempo em que tinha uma família normal, marido, uma filha, levei tempos infindos a decidir-me permanecer naquela casa, mas como era bem perto do hospital, acabei por resolver-me a remodelá-la, consegui que uma empresa me ficasse com quase tudo em troca de mobílias novas. Tento adormecer. Pensar em coisas boas. Não consigo.


O telemóvel acordou-me. Atendi enquanto olhava para as horas. Dormira sete horas, uma ligeira sensação de fome lembrava-me que não comia uma refeição quente há doze horas pelo menos. «Sim, como é que está, mãe? Diga!». Escutei o discurso incessante dela a admoestar-me por não me alimentar suficientemente, “Assim, a trabalhar tanto e sem comer, que almoçaste? nada, claro, não tinhas nada no frigorífico? Não sabias fornecer-te? Queres uma pizza que eu encomendo? Olha, vem jantar cá, vem!”


Um duche frio para apagar o sonho que o telefonema interrompera. A Gisela na caminha dela a chamar por mim com um sorriso e a boneca preferida na mão… o peito manchado de sangue…


Diário de Carlos


25.02.2015


Sinto um mau cheiro, a atmosfera está carregada de maus cheiros. Esta cidade, este país, apodrece. De tanto adiado apodrece. Na indefinição, na indiferença, na estupidez. Cupidez. Pobreza. Avanço e paro, neste trânsito caótico, avanço e paro. Sou um país que avança, faz que avança, e pára. Disfarça-se de rico, desenvolvido, europeu. Sempre adiado. E é o sacana do Gonçalves que não me larga o telemóvel, «O projecto? Quando é que o trazes? Pôrra!». Vai-te lixar, Gonçalves. A minha ponte não se fará às três pancadas. Quero uma ponte tão alvacenta ao sol que irradie a luz como uma tela impressionista, que à noite se ilumine de mil estrelas artificiais. Uma ponte com pés de granito, braços de mármores, cabeça de aço. Quero uma ponte com um jardim suspenso, como na Babilónia. Canteiros com flores de ambos os lados. Com sonoridades: a música de Brukner para quem entra, a de Verdi para quem sai. Não quero apenas pedra e aço: quero madeira, arcos de madeira de carvalho. Uma mistura sábia de passado e de futuro. Tenho tudo na cabeça.


Projectar uma ponte em tempos de miséria e revolta. Enquanto a sonho, desenho e corrijo, um tremor de terra parece abalar este país. Políticas erradas, políticos medíocres, espertos o suficiente para encher os cofres dos ricos, esgotaram a paciência deste povo. Não pertence ao número dos ricos mas não passo fome. Mal tenho tempo para observar a miséria, no entanto ela estava ali, à saída do prédio de escritórios onde trabalho, nos bairros que percorro até casa, nas ruelas que frequento à noite a pé. As multidões acotovelam-se como se tivessem um destino. Mas não têm. Ninguém tem aqui, nas ruas, um emprego certo. Dia aos dia os desempregados acumulam-se nas esquinas, nos passeios. A pobreza perdeu a vergonha. Os antigos funcionários de fato e gravata são agora indigentes. Os operários de fato de macaco são agora pedintes. As lojas encerram as portas. Aqui e ali sobram ainda algumas, com a empregada à porta, a fumar com o telemóvel na orelha, a fingir que são muito cortejadas.


As notícias são aterradoras, os esforços do Governo para acalmar são infrutíferos, a propaganda já não resulta, a realidade está nas ruas e nos ecrãs, virtual e real identificam-se, para os jornalistas as más notícias são as boas notícias. Por mais que alguns disfarcem, a soldo do Governo, o alarme está instalado, os pobres são milhões, os quase-pobres são incontáveis. A ameaça do caos e da anarquia insinua-se por entre os interstícios dos poderes difusos, as oposições e os contra-poderes disseminam-se. Revoltas surdas, revoltas ruidosas, manifestações públicas constantes, greves, os empresários - pequenos, médios, grandes - recorrem generalizadamente ao mecanismo do chamado ‘lay-off’, acentuando as contradições do capitalismo: se a regra do Capital é aumentar a jornada de trabalho, agora é diminui-la quando precisam. As encomendas não chegam, as encomendas não se escoam, as dívidas aos fornecedores acumulam-se, os bancos ficam de mãos a abanar.


E quer o Gonçalves a ponte com urgência…antes que o caos o afogue. A fé dele é que o Governo cumpra com as soluções que apregoa para amansar a crise: obras públicas. A verdade é que anda a pedinchar os dinheiros à União. Até para uma ponte de modestas dimensões. Candidata-se a tudo que é programa, mas nem o que lhe dão gasta. A Europa? As notícias do dia são as piores para ela (ou para eles): atentados terroristas abalaram hoje vários países, amanhã chegarão aqui. Atentados sem assinatura, para os quais se inventa imediatamente uma ‘Al-kaida’ que já não existe, se alguma vez existiu, o terrorismo é já interior, europeu, começou nos países mais pobres, do Leste, e já irrompe nas potências do Ocidente, nas praças-fortes, e dos discípulos de Ossama Bin Laden não há vestígios. Que forças estão por detrás não se sabe, provavelmente as polícias, os militares, os grupos da extrema-direita. Não se sabe. Talvez a extrema-direita com a extrema-esquerda, já não seria a primeira vez, é da História.


O lixo amontoa-se. Os trabalhadores estão em greve há dois dias. Cães e gatos vadios esgravatam nos caixotes, escapam à fome que os donos lhes dão. Ao cair da noite competem ferozmente com seres humanos, de faces lívidas e esquálidas, fantasmas, monstros de um filme de zombies.


Sim, o sacana do Gonçalves tem razão: é preciso construir a ponte quando antes, que isto está para explodir. Não acredito em paraísos, muito menos naqueles que brotam das ruínas de uma sociedade devastada pela guerra, pela fome, pelo terror. Contudo, a minha ponte é uma utopia. É assim mesmo que eu a quero. Que digam dela que é um sinal de esperança, que, para mim, é um sinal da vontade teimosa que tenho de sobreviver. Altifalantes difundirão permanentemente óperas e sinfonias, palhaços e acrobatas entusiasmarão as crianças que a atravessarem nos automóveis dos papás ou a pé pela mão deles. Largos passeios permitirão que se passe a pé, para desfrutar do ambiente. A ribeira (porque nem chega a ser rio) há-de correr límpida e cristalina, bandos de patos escolherão aquele habitat acolhedor, nas margens floridas crescerão choupos e olmos.


Sim, é preciso que a ponte se eleve, alvacenta e azul, como a pele e os olhos de uma bela mulher. Com os seus braços sensuais, as suas coxas sedosas, o seu ventre ondulado…A minha ponte é a utopia, e a utopia disfarça-se de mulher.


Depois dela virá o dilúvio. Ela permanecerá.


Diário de Marta


20.02.2015


Fui jantar a casa dos meus pais, acabei por aceitar o convite. Preferia estar sozinha, mas era insuportável atender a mãe ao telemóvel constantemente e as desculpas já soavam a mentiras. Odiava mentir. A mãe também, mas a frontalidade dela era diferente da minha, era incómoda, tutelar, invasora, inoportuna, chegava a ser opressiva, sem respeito, sem compreender a necessidade de isolamento da filha.


Comemos peixe, obrigatório naquela casa. Mastigava com a boca seca pequenas tiras do peixe-espada, lembrando-me do apetite que sempre tivera noutros tempos. Observava o cabelo pintado da mãe, que negava a idade, a sua boca rodeada de rugas abrindo-se e cerrando-se conforme falava e comia. Observava e temia que em qualquer momento a mãe voltasse a falar da Gisela. Percebia nas reticências e insinuações a tentação, lançava-lhe um olhar fixo para a conter. A mãe no falar era desbocada, sempre fora, agora com a velhice acentuava o gosto e o vício. Quando trabalhava fora de casa, era conhecida por esse pendor. Verdade se diga que não era de fofoquices e, por isso, tinha sempre amigas no trabalho, nas pequenas escolas onde leccionou dezenas de anos, os pais das crianças gostavam dela. Era a minha mãe, com os seus defeitos e as suas qualidades melhores que os defeitos. Porém, actualmente, não tenho paciência para ela, para o pai um pouco mais, é reservado, silencioso, discreto. Um casal com quarenta anos de vida comum, completa-se, de outro modo não sobreviveria.


Não quero pensar na minha filha, tão pequena, tão mimosa, morta e enterrada, contudo ela está aqui, ao meu lado, provocando a avô com as suas traquinices, fingindo não querer comer para que ela lhe prometa o que lhe apetecer pedir por brincadeira, um jogo em que a idosa cai sempre na armadilha tecida por uma petiz.


Quando estou para terminar a sobremesa, que como com algum gosto, talvez precise de açúcares, tocam os primeiros acordes da Ode Triunfal no telemóvel. Atendo. É o Rogério. Médico, meu colega no serviço, somos amigos mas ele parece desejar mais do que isso. Não possuo nada para lhe dar, nem desejo, nem ternura. Mesmo os esforços que ele faz para me distrair maçam-me. Desistiu de me convidar para discotecas e outros locais ruidosos, ficou-se pelo convite para cinema, ainda assim com uma condição prévia: que não tenha mortes. Regra difícil de respeitar nos filmes de agora. Tarantino ainda suporto, as mortes são teatrais, coreografadas e as histórias são soberbas e irónicas. O filme errado que eu não devia ter visto, foi «Expiação», baseado no livro homónimo de Ian McEwan, o mesmo escritor que me arrasou com «A criança no tempo». Evito, no entanto nem sempre consigo tão premente é o meu gosto pela leitura, até para me distrair, ocupar-me nas horas infindáveis que passo sozinha, isolada, com o gato e a caturra na gaiola.


Digo ao Rogério que me dói a cabeça, não estou capaz de sair para parte nenhuma, mas ele insiste, a noite está esplêndida, um saltinho a Santa Cruz, ir e voltar, e a mãe que escuta a conversa e acena com a cabeça e murmura «Diz que sim, diz que sim!».


Quinze minutos depois toca a campainha, entra, cumprimenta os meus pais com desenvoltura, traz a abundante cabeleira que já começa a clarear bem penteada, uma camisa de ganga que lhe fica bem, um sorriso radiante. No hospital não é galanteador para as enfermeiras, pelo menos à minha frente, apesar de algumas serem bem atrevidas; porém, há qualquer coisa nele de sofisticado que o torna um pouco pedante, pouco natural. Ou simplesmente não me sinto disponível.


No automóvel dele, estacionados no redondel ao lado da Havaneza, tenta beijar-me ao fim de meia hora de conversa. Recuso. Definitivamente estragou tudo. Definitivamente talvez nem tanto, mas fico de sobreaviso e estabeleço os limites. Nada disso me interessa. Com ele não, e não vejo que haja outro.


Estamos sentados num banco altaneiro, atrás de nós a casa onde viveu João de Barros, o escritor que me deu a conhecer Homero quando era miúda, as escadarias na falécia, a praia, o oceano. Um dos pontos de Santa Cruz que mais frequento nas horas de evasão, quando a infelicidade é insuportável. Estou absorta, ele fala mas não entendo o que ele diz, apenas fixo o mar e escuto-o a deslizar sobre as areias. Subitamente um minúsculo ser aparece iluminado pelo luar, saltitando na espuma, recuando e avançando. Estremeço, a brisa torna-se gelada. Apetece-me descer a escadaria aos gritos «Gisela! Gisela!». O braço dele sobre os meus ombros, desperta-me. Gisela não está ali.


No regresso viemos silenciosos. O acto precipitado e algo vulgar dele despertou-me a lembrança desagradável do meu marido. Do meu ex, digo. Não sei por onde anda, não faço nem quero fazer a mínima ideia. Culpo-o pela morte da Gisela, e isso é um facto que não estou nada predisposta a alterar. Odeio-o e não lhe perdoo. Preferia que ele me fosse indiferente, mas tal seria libertá-lo da responsabilidade na tragédia que vitimou a nossa filha. A minha filha. Nunca foi dele: é estéril, levámos dois anos a concluir que a causa cabia-lhe a ele não a mim, um ano inteiro para Sua Ex. se decidir a aceitar a inseminação artificial. Portanto, Gisela era minha, não dele. E por causa dele, morreu.


Diário de Carlos


26.02.2015


Morreu na cama, durante o sono. Ninguém ao seu lado para pedir socorro. E como saber, se a pessoa ao nosso lado aparenta simplesmente dormir? Ninguém sabe se teve um sobressalto, se pediu ajuda, se teve a noção de que ia morrer. A única doença - os diabetes - que quase não o incomodavam, matou-o. A mulher, minha mãe, fora levada numa ambulância nesse dia para Lisboa, julgando que era ela que ia morrer. Provavelmente a aflição matou-o. Alguém deu-me a notícia pelo telefone, o traço com que desenhava uma vivenda para um cliente saiu subitamente torto, pousei o telefone e fixei demoradamente a chuva que fustigava a janela ampla do gabinete. Avisei os colegas, a Carla de olhos claros abraçou-me com insuspeitado carinho, o Vasco de brinco na orelha e esguio como um cipreste pôs ambas as mãos nos meus ombros, não senti vontade de chorar mas, antes, uma desconcentração, atrapalhei-me a encontrar o caminho para a saída, deixei ir abaixo o automóvel, estacionei em frente de casa amolgando a porta de outro carro, fiz um saco de viagem com meia dúzia de roupas sem nexo e já em plena viagem é que informei a Sofia do que sucedera e para onde eu ia. A vila onde meu pai falecera e ia ser enterrado ficava a mais de duas centenas de quilómetros, ali nascera setenta e cinco anos antes e ali fora morrer. Cinquenta quilómetros andados voltei para trás, dirigi-me ao local de trabalho da Sofia, abracei-me a ela e foi então que chorei. Partimos juntos depois dela preparar a sua maleta com mais demora.


O meu pai havia sido um bom pai para mim, talvez duro demais com os outros filhos, comigo fora sempre compreensivo, mesmo quando reprovei um ano escolar naquela idade em que só fazemos parvoíces. Fui dos meus irmãos o único a querer seguir os estudos e ele apoiou-me, apesar de não existirem meios para mos sustentar. Foi por ele que aprendi muito cedo a apreciar a grande literatura, foi por ele que comecei muito cedo a gostar dos jogos com as palavras. Então, via nelas as ondas ora bravas, ora mansas, do mar. Hoje, vejo apenas a espuma.


Ontem fui jantar com a Carla. Devia dizer: levei-a a jantar? Na verdade já não se leva mulher alguma a jantar, a não ser que ela viva naquele sertanejo onde está sepultado o meu pai. Convencemo-nos ambos que poderia surgir algo da nossa longa camaradagem de trabalho. Solteira, os olhos vivos, o andar tímido, miúda, Carla é a fragilidade em pessoa. Sempre a pedir desculpa por existir, por estar ali ou acolá. Todavia, por detrás daquela mansidão natural, não há submissão consentida. Se fomos para o seu apartamento fingir que íamos beber um último copo, foi porque ela o quis. De resto, ela não bebe qualquer espécie de álcool. Se fizemos amor foi porque ela me pediu para dançarmos ao som do cd que colocou, e ela saberá porque o escolheu, Prophesy, de Gilio Sawhney. Versos graves e quase tristes sobre um ritmo erotizante. Desprendeu-se (porque não fiquei surpreendido?) soltou a sua natureza feminina, maneou as ancas estreitas, primeiro com alguma timidez, depois foi crescendo no espaço, libertou-se no tempo, a Carla, afinal, mostrava experiência de discotecas, e porque não havia de ser assim? Não olhava para mim quando ritmou os movimentos preliminares, depois olhava-me cada vez mais longa e fixamente, a Carla exibiu uma perfomance magnífica, um corpito fino e juvenil, as mamitas sem volume, aquele tipo de mulher-rapariguita que os jovens não reparam , excepto cara a cara, porque são claríssimos os seus olhos azuis, vistosa a sua abundante cabeleira de cores quentes, calculadas as suas palavras. Dela se pode dizer que vai à fonte insegura mas formosa.


Hoje penso nela assim: um pequeno vulcão adormecido, a metáfora gasta serve muito bem. Penso nela e desisto dela. A diferença brutal de idades não me permite alimentar ilusões. Não se trata de paixão (em ambos a paixão seria recíproca e fulminante), ou melhor: porque se tratam de paixões é que não posso, não devo, permitir que Cupido faça de mim um alvo fácil, é comum a sabedoria de que a mulher jovem é ciumenta e, eu, se o não for de início, tornar-me-ei logo que lhe dê a conhecer os primeiros sinais da velhice que avança inexorável. Antevejo o sofrimento que virá, um dia não muito longínquo, quando ela se vir cortejada por um rapaz da sua idade ou pouco mais, um amigo, um colega da universidade onde ela tenta alcançar o mestrado (trabalha connosco em part-time). Inevitável. A Carla só pode ser um episódio na minha vida, um anúncio apenas de felicidade, de rejuvenescimento, dessa potência activa, alegre, de existir, de que tanto necessito. Somente isto: um clarão na noite escura.


Amanhã é sexta-feira, não vou produzir, não vou criar nada. Vou conduzir duzentos quilómetros, rever a campa onde meu pai foi sepultado.






DIÁRIO DE MARTA


26.02.2015


Fiquei boquiaberta. A conversa com a Carla deixou-me perturbadíssima. A Carla é uma amiga minha, muito jovem, não é, talvez, ainda uma amiga, conhecia-a há muito pouco tempo, viajamos no mesmo autocarro para Lisboa, não gosto de conduzir, prefiro o transporte público, vou a Lisboa uma, duas vezes, quando calha, faço isso como uma fuga de mim própria e dos outros, desta cidade que cresce mas é pequena, onde proliferam os medíocres e os maledicentes, a inveja, vou à capital espairecer, os bons espectáculos de teatro ou dança distraem-me, embora por vezes chore com os dramas quando me tocam nas feridas, no fracasso do meu casamento, na morte da Gisela. Da Carla sei que trabalha e estuda em Lisboa, é simpática e pareceu-me tímida, a diferença de idades em vez de nos afastar aproximou-nos, provavelmente uma simpatia e confiança à primeira vista daquelas que ninguém sabe explicar. Ontem fomos as duas assistir ao espectáculo de dança da Olga Roriz. Temos essa afinidade pela dança, bem assim como pelo teatro. Danço sozinha, em casa, quantas vezes! Com o meu ex-marido íamos dançar frequentemente. A Carla é mais freguesa das discotecas, naturalmente para uma jovem, do que eu. Teatro experimentei-o há muito tempo, todavia ficou-me esse «bichinho» que nunca mais nos abandona. Fomos então as duas deliciar-nos com essa «Nortada» estupenda da Olga, e ficámos na conversa depois num barzinho confortável. É certo que as mulheres apreciam falar, conversar, sobretudo, umas com as outras (nos homens observo a mesma atitude, mas não sei se somos realmente diferentes), e as conversas são como as cerejas que se tiram do cabaz, contou-me mais pormenores, fui eu que puxei o assunto talvez para evitar que a Gisela viesse ao tema, sobre a empresa onde trabalha em part-time, uma empresa de arquitectos, é nessa actividade que ela está quase formada, desenham casas evidentemente, e pontes, etc., o administrador é um tal Vasconcelos, irritadiço e chato para os arquitectos subordinados, para ela nem tanto, anda sempre a pegar-se com um que se chama Carlos, um indivíduo do qual a Carla hesitou em falar, denunciou uma tão curiosa hesitação, baixando os olhos quando o referiu, que me obrigou a perguntar mais sobre ele. Prendeu-se-lhe a língua e deixou no ar apenas uma vaga insinuação, entre o elogio e um estranho rancor, estranho nela, que me parecia isenta em relação a tais sentimentos…Não insisti. Mudou de assunto, algo constrangida, e passou a convidar-me a ir visitar uma galeria de arte, vai lá com o namorado para a semana, não sou tão apreciadora ou conhecedora de artes plásticas como ela julga que sou, mas aceitei, vi nela interesse em apresentar-me o parceiro (essa súbita mudança de tema, em que passou do tal Carlos para o namorado pareceu-me sintomática). Foi então que a conversa ganhou um rumo inesperado: disse que o namorado conhecia o dono da galeria, faz-lhe uns fretes para ganhar uns cobres porque também anda a terminar os estudos, o tipo da galeria chama-se Bártolo…E aí, a minha curiosidade acendeu-se: como é esse tipo? Descreveu-me um indivíduo mais baixo do que alto, quase calvo, o resto do cabelo cortado à escovinha, vestindo-se de maneira exótica, que tanto parecia gay como não…Um corisco caiu-me no alto da cabeça como um martelo! Esse tipo conheço-o! Viu-o duas vezes com a minha mãe numa geladaria de Lisboa, bem conhecida aliás. Da segunda vez vi-os de mãos dadas. Assim mesmo. Nunca falei à minha mãe sobre isto, achei aquilo estúpido e ridículo. Mas à Carla perguntei de rompante se sabia algo sobre a vida pessoal desse tal Bártolo, se era casado, gay, se tinha uma amante. A Carla não sabia ao certo, o namorado contara qualquer coisa sobre isso, dele ter uma amante, uma senhora casada que o visitava na galeria, contudo não sabia descrevê-la, ela nunca a vira.


Desta conversa restam-me uma incerteza e uma certeza: a primeira é que o tal Bártolo lhe fora apresentado pelo arquitecto Carlos, com quem ela tivera, seguramente, uma relação íntima; a segunda, é que a minha mãe, a própria, tem um amante! Incrível. E, todavia, nada mais verdadeiro. A minha mãe. Começava a compreender as saídas frequentes dela e os amuos do meu pai quando o encontrava sozinho no apartamento, fechado como um túmulo, com o copo de uísque na mão. O uísque que não largava há anos e que contribuiu e muito para a catástrofe do seu casamento.






DIÁRIO DE CARLOS


2.03.2015






O teu funeral distinguiu-te como uma figura pública. Foste acompanhada por senhoras e senhores importantes das artes, da política, da alta sociedade. Nem um zé ninguém, uma operária, a mulher da portaria, esteve lá. Eras uma mulher de sucesso. O maior inútil ali presente terei sido eu, para aquele mundo bem sucedido. Não pintavas, mas vendias. Não fotografavas, mas vendias. Com que charme e persuasão! Em vinte anos fizeste uma carreira notável. Ignorava a tua conta bancária, mas sabia-a choruda, bastava ver-te no regresso das tuas compras, apenas tuas, apenas para a tua pessoa, e a cabeleireira, as massagens, o clube, as viagens. No velório não olhei para ti sequer uma vez, não por crueldade, mas por compaixão. Por mim talvez. Aquilo que vira em ti durante meses de agonia chegara para meu sofrimento. Descobriste com alguma surpresa o quanto sofri por ti. Chegaste a julgar que eu te amava muito, perguntaste, eu respondo que sim, mas menti. Não, não te amava, há anos que não te amava já. Nunca soube ao certo se as amantes que tive te provocaram o desamor que os teus amantes me provocaram a mim. Se o resultado fosse equivalente porque não me deixaste? Não precisavas de mim pela fortuna, eras tu que a acumulavas; nem pelas viagens, eras tu que as fazias e raramente comigo, nem pelos amigos, a maior parte eram teus, e os meus não te interessaram nunca, todos eles tinham defeitos para ti, frequentemente os mesmos: uns derrotados da vida (ultimamente era assim que os classificavas a quase todos), uns boémios e umas galdérias. Gabavas os teus pintores, os teus fotógrafos, os teus críticos de arte, os teus professores universitários, os teus empresários. Esses sim, representavam o alvo da tua admiração e da tua cobiça, por aquilo que criavam uns, por aquilo que representavam, outros. Foste para a cama com quantos? Talvez não muitos. Às vezes, para me irritares, insinuavas que sim, com fulano e beltrano, mas sempre desconfiei que fosse treta. No fundo eras uma mulher frígida, ou quase, ou passaste a sê-lo. Sedutora, mas indiferente aos fogos da paixão. Por ventura eles julgavam-te fácil, ardente, mas enganaram-se. Eras um fogo para ser visto, não para aqueceres.


Não tenho saudades de ti, tenho e não tenho. Amei-te não te amei. Tu foste a floresta onde me perdi, o predador e eu a presa, eu o predador, tu a presa, tu foste as lágrimas e o riso, a alvorada e o anoitecer, o rumo e o rumor, a pegada na areia, os orgasmos ao espelho, as fantasias e os temores, o pequeno-almoço na cama, os piqueniques de burgueses, a torreira dos Algarves, os cabelos na almofada, os vómitos na sanita, os sonos despertos à tua cabeceira, a lividez da lua na tua face, os amantes que tiveste e não tiveste, a foice da morte.






DIÁRIO DE CARLOS


3.03.2015


Desci a montanha de faces lisas como um cone apontado ao céu. Pedregosa, as pedras rolando, os sapatos rompendo-se nos gumes acerados dos sílex espetados no solo. Escorreguei e caí de borco uns metros abaixo, na argila seca e dura, sem um caule de arbusto, sem uma flor silvestre que a alegrasse. A planície abria-se diante de mim, lívida sob uma lua de cemitério. Vasta, imensa, sem sinal de rio, lagoa ou mar, que trouxesse uma miragem ou uma brisa. Desértica, árida, silenciosa como um túmulo, nem um golpe de asa, um grasnido de animal feroz, o vulto de um roedor noctívago. O único espectro era eu, que não sabia o que fazia ali, que não sabia sequer que era eu. Somente uma sombra difusa que me identificava. Alguém em mim gritou. Nenhum eco se ouviu. Ao longe, muito ao longe, uma pequenina e diáfana luminosidade parecia que me chamava, guiando-me os passos. Mas aquilo que em mim sentia teve medo. Um antiquíssimo medo, vindo dos confins das florestas e das savanas. Aquilo que em mim era um corpo estava semi-curvado, equilibrando-se com dificuldade sobre os pés, as unhas grossas e encurvadas, totalmente coberto de pêlos, negros e hirsutos. Fez-se subitamente escuro, uma nuvem tapou a lua. Dei um passo, tacteei o solo, dei outro passo e mergulhei num poço. Tombei sobre algo mole que me aparou a queda. Mexeu-se. A lua reapareceu e vi. Vi um corpo semelhante ao meu. Olhava-me com uma espécie de contentamento nos olhos nebulosos. Uma mão mais fina que a minha procurou o meu ombro. Estremeci e despertei. A janela estava escancarada e a lua era pálida. Levei a mão ao copo de água à minha cabeceira e bebi-a de um trago. Estivera a sonhar. Estranho sonho que não se compunha manifestamente do presente, claro o seu significado latente, porém escapava-me o seu propósito. A propósito de que coisa, situação, emoção? Vejo-o com um regresso, retrocesso, como se me colocasse sem recurso a máquinas que hão-de vir num presente já passado, remotíssimo, em que eu – nós - não possuía ainda um eu, uma individualidade, apenas um corpo bruto em transição, sensitivo desprovido de sentimentos, daquela matéria de que se fazem os pensamentos.


Quem sou? Que faço aqui?


Meu amor que nunca vieste, nunca ficaste, nunca foste, quem sou?






DIÁRIO DE MARTA


3.03.2015


Não se pode circular. Automóveis avariados no meio das ruas, em cima dos passeios, montanhas de lixo, cães vadios chafurdando nos restos fétidos, mendigos famélicos disputando entre si e com os animais, como animais, abandono a avenida Humberto Delgado e desvio para a Henriques Nogueira, pior a emenda que o soneto, uma manifestação silenciosa impede-me o avanço, deixo-me ir atrás contando os segundos, meto na primeira à esquerda, chego sem mais percalços ao parque da várzea e fujo para fora da cidade. O mundo desabou. Não há futuro, o presente é passado. Só tenho um passado.


Nem quero pensar nos amores fúteis da minha mãe. Verdadeiramente ridículo. Com aquela idade, a disfarçar as brancas com o artifício do loiro, quando se maquilha é uma máscara, não assusta mas faz sorrir, a condescendência que se tem por uma velha gaiteira. Enfim, ainda não é tão velha como isso. E não estarei a ser preconceituosa? O amor não pede bilhete de identidade. Quando chega, chega. Mas é a minha mãe, pôssa! E o marido atraiçoado é o meu pai. Como será esse Bártolo? Dono de uma galeria de arte?? Isso enriquece? O tipo oferece-lhe diamantes e rubis? Champanhe e caviar? Tenho que admitir que ela é culta, tem bom gosto e conhecimentos de história da arte, nas estantes não lhe faltam livros desses, sim, é verdade, a coisa atraiu-a, a sedução dele andará por aí, exposições, inaugurações, artistas, gente bem falante, sim, esse mundo agrada-lhe evidentemente. A cama vem a seguir. O costume.


Ontem, numa das rotundas da várzea, cruzei-me com um carro e a pessoa que o conduzia provocou-me aquela emoção que se sente quando vemos alguém do outro mundo. Não identifiquei aquele homem, mas reconheci-o. Vinha de tempos imemoriais, como se subisse do fundo do oceano, viesse à superfície, ficasse a flutuar entre as névoas da memória. Tinha o cabelo completamente grisalho, um rosto de homem maduro, a começar a envelhecer, mas forte, bonito. Não me viu, por isso faltou-me a certeza de um «clique», uma troca surpreendida e cúmplice de olhares. Passei a tarde a pensar nisso. Seguramente que o conheci em qualquer altura da minha vida. Havia nele traços físicos inconfundíveis, invulgares. Somente à noite quando estava prestes a adormecer, o nome me surgiu como a legenda de uma fotografia: Carlos! Exactamente. Na fotografia é um rapaz de dezoito anos, cabelo e sobrancelhas negras, olhos castanhos grandes e inteligentes, às vezes cheios de doçura, outras vezes perdidos no além, fundos de melancolia, eu dizia-lhe: «Tens saudades do futuro!». O Carlos. Meu amor primeiro dos dezasseis anos. Aqui. Bem perto de mim. Reaparecido como dom Sebastião.


E fiquei a pensar naquela frase tão batida: não há amor como o primeiro.






DIÁRIO DE CARLOS


6.03.2015






Há dias cruzei-me com uma mulher dentro de um automóvel que me pareceu conhecê-la. Foi apenas um instantâneo, não me permitiu observar os pormenores, um ápice, um relance, um olhar de esguelha, mas uma luz intensa, um pequeno foco de luz que colocou na sombra tudo o mais: o presente factual e os pensamentos, um rosto na escuridão que, pouco a pouco, se transfigurou num rosto muito antigo, juvenil. Podia não ser ela, quantas vezes confundimos caras. Podia ser, mas creio que não. E creio cada vez mais. Foi há dias e a recordação que emergiu de um passado distante torna-se cada vez mais nítida. Sempre tive dificuldade em recordar nomes, mas este nunca esqueci: Marta! Se acaso foi ela. Era bem estranho que fosse. Há trinta anos que não a vejo. Não foi o primeiro amor, mas foi, talvez, o mais genuíno. Porventura aquele que mais nostalgia me deixou. Talvez porque não guarde dele, ao contrário de alguns outros amores, amargura, ressentimento. Talvez porque me ficasse sempre a impressão de que eu seria feliz se a relação continuasse. Talvez porque nunca fosse capaz de explicar a mim mesmo qual o motivo do seu termo. Ainda por cima, desfecho abrupto. Apenas porque sentimos a certa altura necessidade premente de variarmos, de experimentarmos, de outras novidades e acontecimentos, e dissemo-lo um ao outro quase ao mesmo tempo. E rumámos cada um para o seu lado à procura. Preferi suspeitar que havia alguém próximo dela a fazer pressão, porém nunca quis confirmar, perguntar a outrem nunca, persegui-la para descobrir jamais. Nunca me inclinei para atitudes dessas. Se ela disse que não, ainda que me mentisse, pelo não fiquei. Até hoje, depois de ter casado, depois de ter enviuvado, depois de ter perdido a juventude. Gostaria de ter a certeza que era ela. Não tenho qualquer interesse normalmente em águas passadas; neste caso, contudo, faria uma excepção.






Ontem fui visitar o meu antigo professor. O stô Ramos, como é usual os estudantes abreviarem, não apreciava que lhe chamassem doutor, mas professor, embora possua mestrado e doutoramento, explicava sempre no início dos anos aos estudantes que doutores eram os médicos, ele era professor. E que professor! O ensino para ele era uma missão humanista, quase religiosa, e o ensino dele era um prazer, uma quase constante novidade, por vezes, quando inspirado, um acontecimento. Nessas ocasiões merecia um auditório enorme, de voluntários, e não uma sala modesta onde uma boa dúzia de ouvintes não entendia o que ouviam. Uma vez por outra visito-o na sua casa resguardada por um muro não muito alto, de pedras sem cimento ou reboco, construído por ele próprio, que em vez de afastar, atraía, pelo seu ar rústico e bravio. Um largo quintal nas traseiras e um espaço ajardinado na frente, ambos trabalhados a primor, fariam pensar a um passeante que havia ali um agricultor. A mim sempre me pareceu a vivenda de um inglês, onde não faltava sequer uma estufa envidraçada. Sinto-me bem quando lá vou. Não falamos quase nunca do passado, nem eu nem ele temos qualquer gosto nisso, ainda que o tempo passado com ele na escola, aluno e professor, tivesse sido dos mais felizes. Eu então ria com gosto e facilidade, adorava os desportos, mas tirava um grande prazer dos livros que lia, ou devorava, dos sempre novos conhecimentos que bebia com sofreguidão, e até dos exames não tinha receio, muito embora me enervassem bastante. Foi por esse tempo que namorei com a Marta.


“A solidão é um estado de espírito, sempre se pode mudar um estado de espírito!”, diz-me o professor. “Somos animais de hábitos, um hábito pode ser substituído por um hábito mais potente”. Potência é uma palavra que ele gosta de empregar, potências positivas, assim como as há negativas. “As primeiras produzem alegria, as últimas são a tristeza, o medo, a inveja, a esperança”. Gosta de citar os seus filósofos preferidos: Epicuro, Lucrécio, Séneca, Espinosa, e ensinou-me que todos eles, no fundo, são semelhantes, e que o que escreveram é sempre actual, muito embora somente mais velhos os entendamos bem.


Falei-lhe na Marta, fora aluna dele também. Aqui fizemos uma pequena excepção: falámos desse passado. Mas queria ouvi-lo dizer que a Marta fora uma excelente aluna e apesar de ser tímida e discreta, não participara menos por isso nas actividades. Conversámos sobre a possibilidade de ser ela mesma que eu vislumbrei na cidade onde eu resido. Talvez, afinal Lisboa onde estudámos não é longe, ela cursou medicina, portanto pode ter andado de hospital em hospital. Mas deve encontrar-se há pouco tempo onde a vi, porque de outro modo seria completamente estranho não me ter cruzado com ela. “Olha, meu caro, até pode lá andar há muito, só que nenhum de vós andaria então disponível para se reconhecerem…”. Andarei eu disponível, eu que enviuvei de uma mulher que já não amava há muito? Andará ela disponível para um encontro? “Pergunta-lhe e logo saberás!». É verdade, professor.


DIÁRIO DE MARTA


4.03.2015


A dor é uma companheira cruel. Não me seduz com palavras mansas, emoções doces, mas com punhaladas, agulhas de aço, fotografias a preto e branco, um nevoeiro que afugenta o sol, um redemoinho no mar, uma lagoa fétida, uma torrente de sangue, uma sirene, uma maca, uma maquina, um ecrã, um gráfico, aquele apito assustador da máquina…Gisela, minha filha, meu amor, pedaço de mim, perdi-te para sempre e não vou encontrar nunca mais nada que te substitua. Gisela, em que ia a pensar o desgraçado do teu pai quando te matou na curva fatídica da estrada? Porque não morreu ele em vez de ti? Que farei de mim nesta vida sem sentido?


Do alto das falésias de Santa Cruz apenas me chega o silêncio ensurdecedor do oceano. Estou mais só que Deus no infinito. Deus não me escuta.






DIÁRIO DE CARLOS


7.03.2015


Procurei fotografias de Marta, de nós, revolvi gavetas, dossiês, sacudi livros, discos, meti-me no carro e fiz a viagem à velha casa que meus pais me deixaram em Mafra com a esperança de que lá tivesse deixado há vinte ou mais anos as fotografias que procurava. Em vão. Lembro-me de ter destruído muita coisa que me lembrasse o namoro fracassado. Realmente foi uma destruição completa. Os meus pais, então, haviam apreciado esse namoro –namorico, teriam pensado –conheceram-na, levei-a a casa deles, que era a minha também, a minha mãe aprimorou-se no jantar, sorria, o meu pai também. Agora recordo tudo nos seus mínimos pormenores. Porém, está tudo na minha memória, de objectivo, de material, nada resta.


Uma noite destas hei-de ir à Ericeira e às escadinhas da Praia do Seixo em Santa Cruz, locais mágicos dos nossos primeiros encontros, primeiros beijos. Que nostalgia, que solidão…Marta, hei-de reencontrar-te! Hei-de mostrar-te o projecto da minha ponte, convidar-te-ei para estares ao meu lado no dia da sua inauguração. Estarás ainda casa? Terás filhos? Irei aos hospitais, às Centros de Saúde, procurar por ti. Encontrar-te-ei. Serás feliz ou infeliz?


DIÁRIO DE MARTA


10.03.2015

Voltei ontem à noite a Santa Cruz. O trabalho no hospital arrasa-me os nervos. Faz-me bem conduzir, por aí fora, embeber-me de silêncios para sacudir da minha cabeça os gritos que escuto, as súplicas que me dirigem. Percorri a estrada que leva à escadaria da praia da Formosa, segui mais adiante e estacionei no exíguo espaço do miradouro no topo da falésia que os namorados escolhem, num acesso de romantismo, para atraírem o abismo para eles. Um pequeno muro impede-nos de lançar o carro arriba abaixo. Podemos fazê-lo mais à esquerda, por um caminho estreito e lamacento no inverno. Não sou a primeira a pensá-lo, nem a primeira a passar da intenção à acção. Imagino o automóvel a rebolar por ali abaixo, a as arestas a rasgarem a chapa, o tejadilho a esmagar-se, o depósito de gasolina a explodir. Estremeço. Desejo morrer e ao mesmo tempo não quero. A minha tristeza não é daquele género que leva as mulheres a beber veneno para os ratos (matou-se deste modo uma vizinha, encontraram-na horrivelmente inchada), ou a lançar o automóvel do cimo das falésias de Santa Cruz. Preferia deitar-me e não acordar. Preferia snifar coca, injectar heroína, fumar ópio e, assim, desvanecer sem imaginação e sem dor. Porém, nunca experimentei essas drogas, não sei sequer onde buscá-las. Até para isso precisava de ter iniciativa, e iniciativa é o que me falta seja para o que for. Necessito e quero realizar actos, contudo há um motor avariado no meu cérebro, limito-me a cumprir os comportamentos profissionais de rotina e nada mais. Quereria ir ao cinema regularmente, tantas vezes quantas os muitos filmes anunciados que me agradam, assistir aos espectáculos da Olga Roriz, ou da Companhia Nacional de Bailado, de que gosto tanto. Porém, não sou capaz sozinha de me decidir. Saio dos turnos do hospital mais do que exausta, exaurida, sufocada com o sofrimento a que assisto, às dores e às mortes que não posso evitar. Trago comigo um sono de séculos, como se a cura pelo sono a que me submeti não tivesse terminado. Talvez seja a defesa natural do meu corpo. Dormir. Esquecer. No entanto, tenho de repetir os mesmos actos: erguer-me com as imagens da minha filha morta a ocupar-me todo o espaço dos meus pensamentos, logo pela manhã.


O meu ex-marido enviou-me uma mensagem perguntando-me se estava tudo bem comigo. O sacana. Ainda se atreve. Eu sei que ele me ama, que deseja mais que tudo o meu perdão. Nem amor, nem perdão. Ponto final.


A minha tristeza não tem fim. É constante e acerada como uma faca espetada na mente, no coração. Rodeiam-me acontecimentos que não me interessam nada, atravesso-os com absoluta indiferença. Vejo mas não olho. Vejo o mundo a desabar, a anarquia nas ruas, as chusmas de desempregados em fúria, as multidões iradas a clamar contra os impostos e os salários congelados, os partidos políticos a organizarem manifestações de protesto contra um governo que não acautelou a dívida pública, que perdeu o controlo da economia, que privatiza tudo para baixar o deficit, que já não tem dinheiro nos cofres para pagar aos funcionários. Vejo velhos e novos partidos a defenderem a salvação do país através de soluções totalitárias: novos messias, novos Salazares, dom Sebastião que emerge do nevoeiro, a democracia posta entre parêntesis, proclamações delirantes de patriotismo serôdio em reacção às ameaças das potências europeias de intervir drasticamente no nosso país de merda. Merda para tudo isso, merda para todos eles. Que se afunde o país, que se afundem nove séculos de história. Afundada estou eu e ninguém me acode. Na realidade, sou eu que ando a acudir aos desgraçados que me caem nas mãos na urgência do hospital. A mim ninguém me socorre.


DIÁRIO DE MARTA


12.03.2015






A igreja de São Pedro, o seu tamanho de capela, a sua arte interior e a modéstia do seu exterior, apesar da bonita portada manuelina, agrada-me, acolhe-me sem vaidades e ostentação. Sinto-me mais recolhida, como em todos os templos pequenos, mais sossegadamente só, comigo mesma ou talvez com Deus, se acaso Ele existir. Eu quero crer que existe, eu gostava que existisse, necessitava que existisse, todo Ele bom, misericordioso, compassivo e compreensivo. A igrejinha de São Tiago também é assim, sóbria e discreta mais ainda, como se fosse uma igreja construída por pobres para os pobres. Eu sei que os pobres admiram as igrejas ricas, cobertas de oiro e esplendor, que os submete, intimida e parecem demonstrar o vasto e eterno poder da Igreja católica. Comigo não se passa assim. Nessas vejo somente o poder de uma instituição terrena, nas outras deixo-me invadir pela vontade de crer, pela comoção, e pela saudade depois da perda da minha filha. Nada peço, porque nada há a esperar após a morte de um ser tão querido, se não e apenas o luto. Refugio-me no canto mais discreto, longe das beatas que recitam orações e imploram curas milagrosas para os seus achaques de velhas, logo após as suas visitas perpétuas ao Centro de Saúde. No hospital chama-se por Deus e quem acode somos nós, os médicos, as enfermeiras.


À saída recebo uma sms da Carla, convida-me para tomar uma bica em Lisboa, respondo-lhe que aceito, no Centro Comercial do Saldanha, amanhã, pela tarde. Mesmo a propósito, pensava enviar-lhe um convite, gostava de saber quem é esse Carlos de que falou com suspeita ligeireza. Carlos há muitos evidentemente, mas desde que me pareceu vislumbrar o Carlos da minha juventude, passei a interessar-me por eles. Certamente que não é ele, mas quem sabe?






DIÁRIO DE MARTA


12.03.2015


Reajo à dor. Meto-me no carro e passeio-me por colinas e vales desta região que, outrora, devia ser soberba, há um século, há dois, quando os franceses se perderam aqui, perderam a vida e a glória. A serra do Socorro, Dois Portos, o lugar da Buligueira onde nasceu Félix Henriques Nogueira, o introdutor das ideias republicanas, democráticas e socialistas, em Portugal – não sou tão ignorante que o não saiba - o apeadeiro dos caminhos de ferro em Runa, tão bonito com tantos apeadeiros e estações do nosso país interior, provinciano, mas tão confortável, doméstico, acolhedor, não fosse estar abandonado. Portugal possui regiões tão diversas que não acredito quando alguém sensível e bom observador privilegia uma sobre todas as outras, quer seja o Alentejo que acho magnífico, e a palavra é justa, porque me faz sentir a extensão, a planura, quer sejam os desfiladeiros cavados pelo Rio Douro, quadro que mede meças com as regiões mais afamados da Europa. Este Oeste, talvez com a excepção da serra do Montejunto, é alcantilado, mas feminino, nos roliços peitos que ponteiam a paisagem, lhe aguçam o solo mansamente.


Encontrei-me com a Carla. Encontrei-a juvenil, airosa, vestida com gosto, uns olhos muito claros, aparentemente ingénuos com um andar de bailarina frágil mas segura, que a torna agradável à vista. Propus-lhe que visitássemos a galeria de arte do tal Bártolo, tinha curiosidade de entrar dentro daquela espaço onde a minha mãe provavelmente seduziu ou se deixou seduzir. Fica no Bairro Alto. A entrada é exígua mas o espaço prolonga-se por duas ou três divisões decoradas com simplicidade e bom gosto. Os dois pintores cujas obras estavam ora expostas, um homem e uma mulher, não me suscitaram grande admiração. Realmente estive atenta sobretudo a quem lá entrasse. Recebeu-nos uma empregada que logo nos deixou à vontade. Demorei-me o mais que pude com a esperança de ver chegar o dono. Foi quando nos retirámos que ele se cruzou connosco à saída. Carla tocou-me no braço, mas não era preciso, reconheci-o imediatamente. Com cachecol de seda colorida ao pescoço, um chapéu de abas largas, um jeito delicado de andar, uma voz quase fina com que nos cumprimentou, dava aquela aparência de homossexual que certos homens dão sem o serem necessariamente. Seria bissexual? E sorri para mim mesma com aquele pensamento perverso. O amante de minha mãe. Que surpresas nos reserva a vida? Que me reservará a minha? Afinal, vou compreendendo a atitude de minha mãe: casada há dezenas de anos com um homem silencioso, que se refugia cada vez mais no uísque, apagado, vê-se, ou viu-se, sexagenária, o corpo a decair nos entre folhos da velhice, o tempo a passar depressa, naturalmente abalada pela morte da sua neta adorada, o divórcio da filha, a tristeza em que me vê mergulhada, tornou-a presa fácil de uma paixão serôdia. Também eu já não sou nova e admito agora que o amor, ou as paixões, o que quer que seja, não respeita idades. De resto, o Bártolo deve ser da idade dela, embora pareça mais novo, provavelmente pinta o cabelo como, aliás, sucede com a minha mãe. Tenho pena, evidentemente, do meu pai. Pode ser que ele reaja mudando os hábitos e os vícios, se souber o que se passa. Mas duvido que saiba, tão inerte que ele é.


Quis saber pela Carla o máximo que puder sobre esse Carlos. O pressentimento tem razão de ser: o meu antigo namorado cursou arquitectura e chamava-se Carlos. Não soube com facilidade tornear a questão, mudar o rumo da conversa, a Carla contava-me sem pausas o que lhe ia sucedendo no mestrado nas áreas da Psicologia, as dificuldades de adaptação quando iniciou o curso, a Faculdade tão diferente da Escola Secundária, os novos colegas, as invejas e alguma exclusão que encontrou naqueles grupinhos que se faziam herméticos, as novas amizades, o namorado…Fiz-lhe perguntas sobre o namorado, com o propósito de chegar ao Carlos. De chofre questionei-a: quem foi o namorado anterior? (Aqui falei-lhe sobre o meu ex-marido para permitir que se sentisse à vontade e não adivinhasse a minha intenção) Hesitou, serviu-se da garrafa de água, confessou que fora uma relação muito forte mas com termo certo, a diferença de idades, a distância física, os mundos separados, os novos círculos em que ela na faculdade se envolveu. Já ia mudar de assunto (demonstrava que o passado estava definitivamente encerrado) quando disparei a pergunta cuja resposta me poderia levar à confirmação: Manténs algum contacto com ele, enfim, às vezes ficam óptimas amizades (questões evasivas), onde pára ele, reside onde? (esta era a pergunta decisiva). «Vive em Torres Vedras». Estava feito o teste. E era positivo. Foi em Torres Vedras que o vi. Agora posso afirmar que o vi.


DIÁRIO DE CARLOS


12.03.2015


Já não sinto a mesma surpresa que me tomou de todo: de facto, os acasos, as coincidências existem, Marta pode habitar realmente na mesma região que a minha, até a mesma cidade, a maior parte do tempo passo-o em Lisboa, ela terá vindo a residir em Torres Vedras recentemente, até mesmo muito recentemente, nos tempos em íamos acompanhando a vida um do outro ela habitava na casa dos pais para os lados de Alcântara e em Lisboa terá residido depois de casar. Com o casamento dela perdi-lhe o rasto. É bem possível que recentemente haja decidido habitar numa região que oferece melhor qualidade de vida do que o inferno da capital, os jovens saem daqui, os mais velhos regressam ou escolhem-na pelo interior sossegado, pelas praias. Enfim, o país é pequeno, até o mundo o é.


Fui visitar novamente o Professor. Na idade que alcanço, nesta viragem da vida ou crise como alguns classificam, fazemos o balanço e a conclusão a que chego é que não produzi nada que valesse a pena. Nunca me identifiquei com coisa alguma, não me comprometi com pessoas e causas. Nunca pertenci a nenhum partido político, nunca a política me seduziu, nem as artes, ao contrário da falecida, toda entregue à galeria, às transacções e às viagens de negócios. Cada vez me distanciava mais dela, apenas quando a sua doença fatal se revelou nos aproximámos, por cumplicidades, hábitos, compaixão. Desconheço quantos amantes teve, resguardava-se habilmente mas não mentia, se eu lho perguntasse ela confessava; eu limitava-me a fingir indiferença, distracção. No fundo, incomodava-me, e estou absolutamente convicto que também a incomodava a ela; provavelmente vingava-se da minha indiferença, vingava-se sobretudo das amantes que eu tinha, sempre mais novas do que ela. Um casamento de disfarces: ambos nos disfarçávamos com as respectivas ocupações. Na verdade, ela é que andava sempre atarefada, produzia, as coisas aconteciam pela mão dela; eu arrastava a minha moleza, desenhava no gabinete sem inspiração, por rotina, ainda que não fosse sempre medíocre o que desenhava, contudo sem paixão. Nesta fase da vida agarrei-me ao projecto da ponte como quem envereda por uma religião salvadora subitamente iluminado. Eu sei que é uma evasão, mas a minha vida é toda ela feita de fugas e contra-fugas. Filho de pais ricos, amamentado por uma ama e servido por um cortejo de criadas, nunca me faltou nada que eu desejasse, bastava choramingar com astúcia para receber automaticamente o brinquedo cobiçado (e logo desprezado). Talvez com as mulheres tenha sucedido o mesmo. Seduzia, era seduzido, fruía, largava.


Encontrei o Professor no seu quintal. O jardim de Epicuro, como ele designa com ironia aquele pedaço, quase breve, de terra (a minha casa paterna possui um vasto terreno), toda coberta de uma espantosa variedade de flores, produtos hortícolas, árvores de fruto, não sei como cabe tudo em tão curto espaço. Calça uns botas de borracha, tem um chapéu de palha na cabeça. Sorri com simpatia quando chego. Sentados a saborear um excelente vinho branco («Compro o vinho nas adegas ou mesmo no produtor», diz-me), contou-me, desta vez, episódios da sua vida (Estranhei estas confidências que nele não são habituais): « Com o avançar da idade, no inverno –na minha idade um inverno soma-se ao outro- vem-me uma dorzita aqui na perna direita. Sofri um grave acidente de viação há muitos anos, tinha eu vinte ou vinte e um anos, éramos quatro dentro de um pequenito carro, íamos para Lisboa, dois rapazes e duas raparigas, transportávamos uma mala cheia de jornais clandestinos, o Avante!, apenas o condutor sabia o que levava, perdeu o controlo do carro e despistámo-nos, o automóvel incendiou-se e na fogueira pavorosa morreu uma das raparigas, escutei os seus gritos lancinantes, ainda os tenho nos ouvidos, como tenho na cabeça os gritos de soldados que morreram na guerra colonial que também fiz…Enfim, os pides foram dos primeiros a chegar, deparou-se-lhes um mar de jornais clandestinos na estrada, soube que estava sob prisão quando me encontrava no serviço de urgência do hospital, entre a vida e a morte. Pela facto estranho dos pides estarem ali, espalhou-se a notícia de que foram eles que disparam sobre o carro, nunca soube ao certo, não minto nem desminto. O resto pertence à pequena ou grande história dos perseguidos pela pide, das prisões políticas, dos interrogatórios inclementes, das celas solitárias, das torturas. Eu fui apenas um caso, outros sofreram anos e mais anos de prisão, no meu caso houve a tragédia daquela morte horrível que não esqueço nunca mais.»


Fiquei a olhar fixamente para o meu antigo e admirado Professor. Nunca nas aulas confidenciou aos alunos fosse o que fosse. Contava-me agora. Com um chapéu de palha e umas botas de borracha no seu jardim de Epicuro. E senti uma espécie de amor viril por aquela figura modesta, franzina, sobre a qual o tempo implacável socavava os alicerces. Li-lhe nos olhos uma infinita tristeza, embora as palavras soassem com serena resignação.


Quando parti, uma interrogação atravessou-se-me na mente: Será que a sua solidão o conduz ao suicídio?


DIÁRIO DE CARLOS


18.03.2015


A minha casa paterna. Cheguei ontem noite alta. Acendi todas as luzes e os meus pais não se materializaram. Abandonaram vestígios: no quarto deles a cómoda da minha mãe, com os seus artefactos com os quais ela compunha aquela imagem sempre agradável com que recebia o meu pai regressado do trabalho, me recebia a mim, muitos anos depois, habitante única daquela mansão, quando eu a visitava; no chão, ao lado da cama, o mesmo lado da cama que ele ocupou durante dezenas de anos, umas pantufas do meu pai. Salvaguardei tudo nos seus lugares para tentar travar o devir do tempo. Cristalizado no quarto, nas estantes dos livros na sala de estar. Fixar o tempo, fixar num ponto do devir a casa como uma ilha no caos. Eu sou feito de acontecimentos, tudo o é, contudo quando reentro nesta casa, quando a ela regresso, nada aconteceu dentro dela, excepto a erosão macia e quase imperceptível dos materiais. Nesta casa parada no fluxo do tempo não há vida humana, a matéria não emite afectos: sento-me no longo e largo sofá onde o meu pai dormia as sestas de domingo e não o sinto, nada resta; passo no corredor atapetado, os quadros nas paredes, e nada sinto que daí venha, nem das escadas de madeira em caracol que levam aos quartos. Somente o silêncio fracturado pelos meus passos. Uma casa assim está esvaziada. E eu encontro-me só.


Procuro um livro nas estantes para me ocupar. Ligo o televisor, elimino o som. Abandono o livro, retiro o computador da mala, busco o correio. Dois e-mails chamam-me a atenção: um, do meu chefe convocando-me para a cerimónia de lançamento da primeira pedra, início da construção da ponte, da minha ponte. Já sabia, o tipo não quer é que eu me balde! É burro, pois eu nunca faltaria a esse momento. A ponte que eu desenhei e vou acompanhar passo a passo é o projecto da minha vida. De uma vida. Perseguirei implacavelmente os engenheiros, os mestres e contramestres, cada operário, para que nada falhe e tudo se cumpra escrupulosamente conforme o que arquitectei.


O outro e-mail é do Professor. O título provoca-me perplexidade e alguma inquietação: «Credo». Leio: «Redijo este testamento intelectual numa altura em que me encontro na plena posse das minhas faculdades mentais. Quer desapareça amanhã, quer viva mais dez ou vinte anos deteriorando-se o corpo e a mente, o que eu agora afirmo é o que fica a valer.


A crença de que não possuímos alma mas uma mente inseparada do corpo, um cérebro que é o corpo, é uma evidência racional e científica absolutamente irrefutável. A nossa Espécie é apenas uma entre milhões delas, que deriva de um elo comum a diversas espécies aparentadas e que sobreviveu à última extinção em massa que o planeta sofreu (como as aves são sobreviventes dos dinossáurios). O que destrói, cria. Somos o resultado de ontogéneses proporcionadas por erros de cópia (vários elos ou ramos da árvore de hominídeos extinguiram-se sem apelo nem agravo), mutações acidentais e de uma prolongada e dura caminhada adaptativa, cujo sucesso se deve à existência de um cérebro e de outras vantagens físicas que nos permitiram colonizar todos os habitats, caçar, pescar, construir fortificações e abrigos, inventar a agricultura, as cidades, os Estados, a escrita, as aprendizagens, os valores e as regras, as explicações sobre o mundo e os modos de viver, de produzir, reproduzir e acumular os excedentes.


Inventámos, por força das emoções e dos modos do viver, ficções fantasiosas de seres sobre-humanos, sobrenaturais, contudo nenhuma realidade transcendente, fora da Natureza, explica melhor a Natureza do que os conhecimentos que estão ao nosso dispor: este universo ao qual pertencemos teve uma origem natural e terá uma morte irreversível, e tudo que de fundamental ainda ignoramos, saber-se-á muito provavelmente neste século e felizes daqueles que possam acompanhar os fantásticos progressos das ciências (esses sim, fantásticos!). Somente existe uma Substância, que é material, pura imanência sem transcendência alguma, que se exprime de diversos e diferenciados modos, físico-químicos, biológicos, sociais (sem a natureza física não se produziriam efeitos de natureza simbólica ou imaterial).


Creio nestes axiomas porque apresentam-se hoje à razão com indubitável evidência. E estas certezas devo-as à Ciência. Por isso ela constitui uma das fontes inesgotáveis do Conhecimento e do progresso social, do humanismo, isto é, da humanização de cada e de todos os indivíduos. Poderá e deverá ser de todos se soubermos aprender com a utilidade e outros valores intrínsecos das actividades humanas que a nossa história geral nos oferece. Os progressos da consciência são inextinguíveis: apesar de todos os recuos e alienações é imensa a parte da humanidade que já não pensa hoje como se pensava há 100 anos atrás! Apesar das derrotas, das mentiras, da ignorância domesticada e induzida, uma ampla percentagem da população mundial acredita, ainda que muitos o ocultem por medo ou pessimismo, que os modos de produzir os bens e de se apropriar dos excedentes (materiais e imateriais) constituem o motor determinante das múltiplas e mutáveis configurações dos organismos societários. Este “bom senso” (que o senso-comum alienado obscureceu) permite-lhe, ou permitir-lhe-á, deduzir (e esta é razão “natural” que se opõe à “razão consensual”, a que é imposta pela ideologia dominante) que uma transformação revolucionária (socializar os meios e bens de produção que hoje já são sociais) do modo de produção actual é não só possível como absolutamente necessária para a sobrevivência da Casa Comum, para o bem-estar de todos que habitam a mesma Aldeia Global. Não há mentira, ou teoria resignada e conformista, que me convença que esta sociedade injusta e agressiva, seja o fim-da-história. Que todas as reformas revolucionárias sejam por via pacífica é o que deseja qualquer indivíduo pacífico e razoável. O perigo que encerra uma auto-defesa violenta contra uma violência imposta é que a violência da auto-defesa seja desproporcionada, ou que os meios justifiquem os fins. Se não queremos que um regime entre numa escalada de autoritarismo, não o ataquemos: qual o animal que não aprende a agressão quando é agredido? O principal problema com a realização do socialismo «num só país» prende-se com a pressa de fazer num só dia, por meios coercivos, aquilo que se poderia fazer pacifica e democraticamente em meses ou anos. Uma ditadura é sempre uma ditadura por mais eufemismos e teorias que a queiram justificar. O socialismo ou é democrático, ou não é socialismo.


Eis o meu credo. Ditado pela minha razão que nenhuma doença ainda afectou. Se a primeira parte é irrefutável, a segunda, reconheço, é passível de refutação. Não deixa, no entanto, de ser racional. Não são os erros e crimes cometidos no passado em seu nome (quantos crimes se cometem e cometeram em nome do que quer que seja!) que a tornam irracional, são os erros e crimes eles próprios que foram e são irracionais.»


DIÁRIO DE MARTA


18.03.2015






Fui ao cemitério deixar flores para a Gisela. Não contive o choro. Não vejo como realizar o luto. Não há perda maior do que a perda de um filho, carne da nossa carne. Trouxe-a no ventre, amamentei-a, brincámos juntas, fez-me rir quantas vezes com os seus comentários infantis, a música das suas primeiras palavras, a expectativa das prendas de surpresa no natal. A vida de uma mãe deixa de fazer sentido quando já não é mãe, quando a fatalidade lhe roubou a luz dos seus olhos.


Preciso de viver e não sei como.


Estive com a minha mãe. Foi necessário telefonar-lhe primeiramente não se desse o caso de não estar em casa, ocupada como anda, ou parece, com a sua paixão adúltera, não desejava de modo nenhum aparecer em casa de repente e deparar com o meu pai sombrio e apagado como uma vela gasta. No fim da conversa gostei de estar com ela. Enfrentou a minha pergunta frontal sobre o amante com algum desconforto, mas depressa se recompôs: «Está certo, minha filha, mais tarde ou mais cedo tínhamos de conversar sobre isso, sei tudo sobre ti, julgo eu, e tu não poderias desconhecer o que passa comigo. Não quero mal ao teu pai, fui feliz com ele tempo suficiente para o estimar, é bom homem e foi um bom pai para ti. Provavelmente o caso em que me envolvi passará um dia destes, não será talvez mais do que uma fuga aos silêncios que pesam sobre esta, casa que já foi ruidosa quando tu e a minha netinha nos visitavam, o teu marido, ou ex-marido, também, não deves esquecer quanto ele era alegre e generoso connosco e convosco, mas, enfim, não falemos dele…Cometeu um desleixo trágico, inqualificável, muito embora eu talvez lhe houvesse já perdoado, mas tu não lhe perdoas, e tens as tuas razões, o amor é um sentimento muito delgado, como um fino fio, quebra-se e desaparece por uma palavra que se diga, um acto que se pratica…Sei do que falo, em relação ao teu pai sucedeu isso e não cometeu o mesmo horror que o teu ex-marido, provocar a morte da filha porque estava ao telefone não sei com quem, e logo ele que conduzia sempre irresponsavelmente depressa…Mas não falemos disso, é assunto que não esqueces mas queres esquecer, o teu problema é não conseguires fazer o luto, matutas, matutas, e dás cabo da cabeça e da tua vida, só tens uma vida, bem sabes, já não és uma jovem, o tempo passa depressa, sei bem isso! Tens que refazer a tua vida, eu não tenciono, está descansada! refazer a minha vida com o Bártolo, falemos no nome dele porque pelos vistos já o conheces, não tenciono não, continuarei com o teu pai, a não ser ele que não o queira, é uma traição? Uma deslealdade? Pois será, mas permite, minha filha, que eu resista à velhice que chega, ao tédio, à frustração, tive uma vida cheia, trabalhei bem, fui respeitada, trazia dinheiro para casa, não mereço, acho eu, um resto de vida infeliz com um homem que me ignora, que desperdiça economias no jogo e na bebida, não sei o que lhe sucedeu para se transformar num pobre diabo, diria que foi a aposentação, mas não me parece, nunca o vi trabalhar com empenho, parece que nasceu um fracassado. Mudemos de assunto…Não sirvo para te dar conselhos, sobretudo agora que não convives facilmente com o meu comportamento extra-conjugal, eu sei, não vale a pena estarmos com evasivas, contudo deixa-me dizer-te o que me parece melhor para ti, para ti que és a minha única filha: já pensaste em ter outro filho? Evidentemente que não substituirá nunca aquele que perdeste, mas será um consolo, uma nova entrega, uma espécie de remissão da tua dor…Com quem, de quem? Não surgiu ninguém na tua vida, não te apaixonaste, não tens um amigo especial? Não tens ou não sabes? Fechaste-te em ti mesma, trabalho, casa, necessitas de sair, conviver, descobrir amizades, olha: nem que seja através destes meios modernos, refiro-me à Net, dizem que se fazem bons casamentos através da Net…Olha lá, tu até nem precisas de recorrer a isso, ainda és uma mulher bonita, com quarenta anos és uma mulher madura, desejável para muitos homens, bastaria que saísses da casca onde te escondes, cuidasses mais de ti, não vais às compras? Não frequentas um ginásio? Tens dinheiro de sobra para isso! Estás divorciada, és uma mulher livre e emancipada…luta por ti, vai em frente! Traz-me um netinho, talvez até seja bom para o teu pai, talvez alegre esta casa tristonha, insuportável. Não queres casar novamente? Pois não cases! Namora o mais que quiseres e puderes, minha filha, vida só há uma e tu já a gastaste pela metade…»


Quando saí de ao pé da minha mãe vinha absorta. Admirada com o discurso dela, desenvolto, afirmativo, que bem lhe anda a fazer o tal Bártolo! E vim a matutar no que ela me disse…um filho, porque não? Vou pensar nisso com a razão. Calcular as estratégias. Mãe solteira. Seleccionar o homem certo para essa função. Exclusiva função de dar-me um filho.


Diário de Carlos


1.04.2015






Ontem realizou-se a cerimónia do lançamento da primeira pedra para a minha ponte. Iniciaram-se as obras. Hoje, pela manhã, já lá fui e acompanhei os primeiros trabalhos de terraplanagem das arribas onde os pés hão-de assentar. O rio naquela zona estreita bastante, as arribas são elevadas, retirada a terra aparece a rocha. Furar o granito, enfiar nos poços as colunas, despejar cimento. Um único tabuleiro, suficientemente largo para o trânsito automóvel e para bermas seguras para os peões. Justificava-se que levasse apenas um arco, porém levará dois, verdadeiramente não serão arcos perfeitos, mas inclinados cada um para o lado oposto, ficarão com uma vibração harmoniosa, cada um a cair para o extremo oposto, dois contrários que se equilibram, lembro-me ainda bem das aulas de filosofia, de Heraclito, o filósofo obscuro mas divino, como explicava o professor Ramos, os arcos da lira, imaginemos duas liras, ou dois arcos, duas forças oponentes, duas forças que jamais se derrotam uma à outra. A minha ponte há-de ser a imagem da identidade das contradições, digo eu, que não sou filósofo, porém não sou estúpido, vivi o bastante para descobrir que as contradições estão por todo o lado, tanto se aniquilam uma à outra, como se equilibram desde que o peso, ou a massa, ou a energia, sejam equivalentes. É esta tensão que aprecio. É esta tensão que traduzi na minha ponte.


A cerimónia decorreu como é costume: o governador civil, o presidente da Câmara e os vereadores, os deputados municipais, a bênção do pároco, um destacamento de bombeiros e representantes engalanados de associações e colectividades. O ministro das Obras Públicas baldou-se, enviou um sub-secretário. O senhor presidente da Câmara fez um discurso empolado, em que falou mais dele do que de mim, mais das obras que promete do que a ponte que estava ali a começar. Tocou a charanga dos bombeiros e ainda foi o que melhor se ouviu. Não houve porco assado no espeto, a populaça depressa debandou.


Tenho saudades da Carla. No fundo, talvez me apeteça é outra mulher. Porque me lembra a Carla? Provavelmente porque não me apareceu outra. Todavia, a Carla rejuvenesceu-me, aquele corpo jovem e sensual mexia comigo. Aprendia depressa tudo que lhe ensinava. Suspeito que já o sabia, em teoria convenhamos pois que era virgem. Que energia naquele corpo sem as neuroses da mulher madura! Tenho quarenta e um anos, ela vinte e poucos, vinte e dois mais exactamente, noutro mundo poderíamos viver juntos, talvez casássemos, teríamos filhos…Mas não, nenhum de nós estava preparado, para casamentos não estou apto, por enquanto pelo menos, e a rapariga ainda menos: um curso superior para terminar, projectos de realização profissional, rapazes da sua idade para explorar. Que fui eu para ela? Uma iniciação. Que foi ela para mim? Uma aventura inconsequente? Que possuía ela a mais sobre as outras que conheci? Esse longo reportório…Talvez tivesse, nenhuma folha de árvore é idêntica à outra. Só as pontes se podem copiar…Será que projectei na minha ponte os arcos dançantes do corpo da Carla? Bailarina, tensão de opostos…


Diário de Marta


1.04.2015


Sim, procuro sair mais, seguir o conselho da minha mãe. Aliás, uma solução óbvia. Desde sempre que a soube, a dificuldade foi encontrar vontade, iniciativa. Somente seguimos os conselhos para os quais já estávamos preparados. Ontem percorri a pé a cidade. Se excluirmos a zona norte que cresce rapidamente, a cidade de Torres Vedras percorre-se sem qualquer esforço. Observei com uma atenção que nunca lhe prestei a Igreja e Convento da Graça. Ao que dizem foi convento dos Eremitas Calçados (curiosa esta classificação! Andariam de facto descalços os outros?). É austero mas adornado com uma elevada e bela torre sineira. Pouco mais posso descrever com termos técnicos que a minha ignorância nestes assuntos não é pequena (admiro os médicos que arranjam tempo para serem cultos). O que posso afirmar como leiga é que o retábulo da igreja é bem bonito. As esculturas são delicadas nos tons e nas roupagens. O claustro é a parte de que mais gostei: um sorriso breve do sol de inverno adoçava-lhe as colunas e fazia apetecer a tranquilidade dos bancos. Visitei o Museu Municipal, a documentação sobre as invasões francesas, esse período histórico do qual todos julgam saber muito e na realidade não sabem nada.


Não pude visitar a Igreja da Misericórdia, ali ao pé do café Havanesa, por estar encerrada, foi pena porque me disseram que era bastante bonita. Aproveitei para revisitar a igreja de São Pedro, pequena e confortável, com uma torre sineira que me informaram ser quinhentista mas reconstruída depois do terramoto de 1755, e um portal manuelino ao qual tirei algumas fotos (a fotografia poderia ser o meu entretenimento preferido se tivesse tempo e aquele à vontade que faz de um fotógrafo um autêntico caçador). Atravessei depois a pequena praceta que se situa nas traseiras, pejada de carros e dirigi-me para o Chafariz dos Canos, monstruosamente enquadrado por uns prédios horrorosos. Um monumento de que nunca vi igual. Merecia uma área condigna e um restauro que o tornasse vivo e atractivo. Regressei à praça da igreja de São Pedro, enfiei pela ruela agradável que desemboca nos Paços do Concelho, com um bonita fachada, virei à esquerda para descansar um pouco num banco aprazível da praça de Machado Santos, que é para mim talvez a praça mais bonita da cidade, ao lado a igreja de Santiago que já visitara antes. A vontade de comer invadiu-me sem aviso, mesmo assim decidi-me a subir o Centro histórico, recuperado recentemente, a guardar respeito e silêncio no interior da Igreja de Santa Maria do Castelo, a mais hospitaleira das igrejas de Torres Vedras, com uma luz diáfana e um belo púlpito. Não sou de rezas, contudo apeteceu-me rezar. Não são as catedrais faustosas que os soberanos mandavam construir para garantir a imortalidade deles, como os faraós, que me comovem, mas as capelas, as igrejinhas modestas, às vezes perdidas e solitárias no ventre das grandes metrópoles, outras vezes peregrinas no alto dos montes.


Não sei se Deus existe, se não. Se existir que tenha em paz ao lado dele a minha filha morta para este mundo.


Amanhã vou visitar o professor Ramos, meu mestre nos tempos já longínquos do Liceu. Não sei o que me deu, que pressentimento, que vontade, que fui descobri-lo na Net, provavelmente por causa de um dossiê de grupo que descobri por acaso, numas arrumações, em casa. E-mail enviado, e-mail respondido de pronto. Vi a fotografia dele num blogue, a cabeça encanecida, os olhos com aquele brilho peculiar que o tornava interessante. Vou visitá-lo, não é longe. Vou seguir o conselho de minha mãe.


DIÁRIO DE CARLOS


2.07.2015


Há três meses atrás a minha ponte era apenas uma pedra e uma cerimónia, hoje erguem-se os pilares altaneiros cuja brancura pinta de sol a paisagem. Operários e máquinas em constante labor. Se ela demorou a iniciar-se, a nascer, tanto a mim se deve como à burocracia. Que não me culpe somente a mim o meu chefe, esse lambe-botas que mete cunhas por tudo e por nada. Enfim, provavelmente desta vez agiu com eficácia. Julga que lhe estou devedor, mas não estou. Admito que não me apressei a entregar o projecto, que fosse bom é o que importa.


Assisto à construção da ponte como se ela fosse uma ilha num mar encapelado de contestação social. A desordem continua. Outros chamam-lhe sublevação, ou desejariam que fosse, eu chamo-lhe desordem social. O mundo em que fui formado estremece até aos alicerces. Seguros parecem ser os alicerces da minha ponte. Violento contraste entre os seus e os da sociedade, entre o seu levantamento elegante e seguro e o abatimento geral da sociedade, entre um futuro e um presente que já é passado.


Vivo dias de alguma euforia. As revoltas nas ruas não me inquietam, nem me tiram o sono. Entretanto, os novos projectos realizo-os por mera rotina. A crise instalou-se, as encomendas são escassas, excepto as moradias espaventosas, as recuperações principescas de mansões, quanto mais miséria, mais luxo. A minha classe média de outros tempos está a desaparecer, o meu pai não haveria de sentir-se nada bem se fosse vivo. Não tenciono alienar a sua herança, refiro-me à casa porque o resto já o gastei. Tudo voou nesses anos loucos de juventude. Viajei, comi e bebi, frequentei os melhores hotéis, comprei um barco que já não tenho e equipamento para pesca submarina que pouco utilizei, esbanjei dinheiro com mulheres de boa e má sorte, emprestei a amigos que nunca me devolveram. Enfim, estou reduzido a uma moradia que herdei onde raramente vou, a um apartamento e a um ordenado razoável. O suficiente para com isso haver seduzido mulheres cobiçosas. Às vezes pergunto-me se a Clara não foi atrás disso também. Sucede naqueles dias em que a desconfiança ou o pessimismo me atacam logo pela manhã. Talvez não, talvez ela se encantasse com outros dotes meus. Quais serão é que não sei. Foi nos tempos em que trabalhou sob a minha chefia, chamemos-lhe assim, isto é, no gabinete, tudo se modificou quando decidiu terminar o curso superior em exclusividade (ou será que trabalha em part-time nalgum sítio? Ou arranjou uma bolsa de estudos?), novos colegas, novas amigas e amigos, e por lá anda com algum. Se me ajudou a fazer o luto pela esposa falecida, ninguém me ajudou ainda a fazer o luto pela perda dela mesma. Se já não padeço, ainda recordo, o que é uma forma de sofrimento. Nenhuma mulher substitui outra, provavelmente as mulheres dirão o mesmo dos homens. Ninguém é igual a outrem. Nem os acontecimentos, os momentos que se viveram nessa comunhão física que faz o amor apaixonado.


E nestas meditações avulsas acabo de evocar a Marta. Tão perto de mim e não dei ainda um passo para a descobrir! Como é meu hábito, ou defeito, aguardo que me conquistem. A bem dizer sei lá qual é o seu estado: casada, e bem casada, com filhos?


DIÁRIO DE MARTA


8.05.2015


Como descobri o stô Ramos ? foi fácil: bastou-me utilizar o Google. Várias informações sobre a sua vida passada e presente: textos em revistas e jornais, comunicações em colóquios e simpósios, trabalhos fotográficos, intervenções na política. E um blogue. Aí encontrei o endereço electrónico. Milhares de indivíduos têm assim a sua vida postada, como agora se diz, em pedaços, links que se cruzam, que se perdem nos intervalos, que é preciso costurar, inventar. Ao fim de vinte e tal anos ele aí estava ao alcance de um clique. E-mail enviado, resposta em meia dúzia de horas. Lembro-me de um folhetim choramingas na televisão que ajudava a encontrar parentes desaparecidos. A internet faz isso agora, sem lágrimas.


Escrevo estas linhas (escrever um diário é conservar a sanidade mental, mais do que uma gaveta de lembranças. Devia-se destruir imediatamente a seguir: quantos equívocos podem os diários provocar em alguém que nos leia!) uma semana depois de me ter encontrado com o meu antigo professor de filosofia e de psicologia. Foi num café, na Ericeira, num dia de semana e naquelas horas mortas em que ninguém, no inverno, se empanturra de bolos (já quase não se encontram nos cafés fregueses a ler demorada e sossegadamente um jornal, um livro). A conversa fluiu rapidamente do presente para o passado, como se o meu interlocutor calculasse que era no passado que se localizava o motivo do nosso encontro (foi ele que me convidou, eu ainda não aprendi a ser atrevida. Defesas femininas). Aparentava saúde e energia, contudo os seus sessenta e tal anos evidenciavam-se, sem apelo nem agravo, na alva cabeleira que já anunciava a marcha inexorável da calvície, na miríade de finas rugas sob as pálpebras quando sorria, naqueles pequenos sinais escuros na pele que denunciam implacavelmente um sexagenário.


Elogiou-me a maturidade física, com cautela e subtileza, lembrou o romance de Balzac, A Mulher dos Trinta Anos (não tenho a certeza de ser este o título pois que não li o livro), explicando-me que naqueles tempos as mulheres alcançavam a sua plena beleza madura nessa idade, hoje alcançam-na mais tarde. Queria relatar-lhe a tragédia da morte da minha filha, abrir o coração, ainda que acabasse a chorar, mas contive-me, afinal era o primeiro encontro com um homem que eu respeitara como professor (naquele tempo respeitávamos realmente os professores) que eu não via há duas dezenas de anos, que ali estava envelhecido, talvez desconfortável pela mudança física com que se apresentava ao fim de tantos anos decorridos, com muitos sabores e dissabores, com certeza, tal como eu os tive. Não via nos seus olhos aquele brilho de alegria vivaz que me permitisse aborrecê-lo com tragédias. Porém, senti-me tão à vontade, inspirou-me uma tão insólita confiança, que estive quase por desabafar. Ficará para um próximo encontro. Neste falámos quase exclusivamente dos tempos em que eu era aluna dele. Soube trazer-me à memória a personalidade que eu tinha então, rebelde, afirmativa (eu, que era tão insegura!), apaixonada (eu preferiria dizer: apaixonadiça!). Realmente envolvia-me em múltiplas actividades e arranjava tempo para todas elas, políticas, associativas, artísticas. Nos colóquios e exposições na biblioteca sobre temas que ele propunha nas aulas, nos espectáculos teatrais que as turmas organizavam, nos concursos literários, nas mostras de fotografia…Tantos mundos que eu mal conhecia e que ele me abriu evitando sempre impor uma presença tutelar.


- Eras muito dotada – Disse-me – Continuaste?


- Não, ou quase nada. O curso de Medicina é muito exigente e longo, de resto a Faculdade não oferecia nada para além do marranço. Depois casei, mesmo antes de terminar já estava casada. O tempo já não chegava sequer para o internato, deambulações de hospital em hospital, uma filha para criar…


- Compreendo, a tua é uma profissão muito exigente, espero que não sintas essa exclusividade como uma frustração, temos que encarar isso, infelizmente ou não, como uma fase que não volta mais, eu também fui jovem e sei como é improvável, na maioria dos casos, manter essa abertura, essa curiosidade que é tão própria dos jovens. Mas que tinhas dotes, ai isso tinhas! Talvez tivesse permanecido o tal bichinho, não?


- Claro! Está cá dentro…Apesar da minha insegurança de então, da minha busca de algo que não sabia o que era, provavelmente buscava-me a mim mesma…


- Através dos outros, das actividades em que te vias a ti mesma de vários ângulos e facetas…


-…Certamente. Ando a pensar introduzir-me numa associação ou colectividade, fazer teatro amador. Continuo a sentir muita necessidade de voltar à pintura, à fotografia, ainda que não fosse uma artista por aí além…


- Pelo contrário! Eras dotada sim senhora! A técnica, a maturidade, vinha com o exercício continuado. Farias bem em retomar.


Deste modo foi decorrendo a nossa primeira conversa após tantos anos de separação. SE me abstraísse dos sinais evidentes de velhice que ele nem sequer disfarçava, se olhasse apenas para os olhos dele, conseguia imaginar-me a rapariga que eu era então, bem mais indeterminada, bem mais insegura, do que ele julga, ciumenta, porque não dizê-lo: invejosa? Um mistura de sentimentos generosos e elevados, admito sem vaidade já que ele o diz, e de sentimentos superficiais, inconstantes. Uma incontrolável necessidade de ser amada, de me poder inserir nos grupos, ser convidada…Tinha inveja das mamas grandes que outras tinham, escrever isto até me custa…dizia de mim própria que era apenas um «patinho feio»…Exagerava as minhas deficiências (se é que o eram), culpava-me. É provável que ao prof. Ramos não lhe escapasse isso, mas preferia comigo acentuar os bons hábitos que vencem os menos bons, aconselhando-me a agir, pois que é no acto que nos formamos e, sobretudo, nos transformamos. O meu acto foi transformar-me em médica, esposa, mãe…


Durante estas rememorações nunca me perguntou pelo Carlos, o que estranhei bastante. Não se recordava ele do meu namorado que foi seu aluno? O namoro foi suficientemente público, a um olhar atento como o dele não escaparia isso com certeza. Porém, não perguntou.


Diário de Carlos


5.07.2015


Sabias os anos, os meses e os anos em que estávamos casados. Nunca percebi se na verdade me amaste sempre, se deixaste de me amar. Se é verdadeira a segunda hipótese, se não entendi nunca a força e duração do teu afecto, menos sei quando se quebrou e porquê. Quando a tua doença se revelou, fatal, inexorável, o cancro no útero, definitivo, implacável, não desprezavas um minuto sequer da minha companhia. Porém, anos a fio, meses, dias, noites, não sentia a tua presença. Reacção natural à minha desatenção, à minha indiferença? Hoje compreendo-me melhor. E não gosto do que vejo. Não sei que defeito, que tara é a minha que me fez assim como sou. Ou como fui. Amava quando perdia o amor do outro. Amei-te quando te perdi. E, mesmo assim, não to demonstrei. Traí-te vezes sem conta, traíste-me por mera vingança? Se foram paixões dissimulaste-as bem. Eu mal dissimulava as minhas. Lias-me nos olhos o brilho vivaz de uma nova paixão. Seguiste-me os passos, vigiavas os meus encontros, exigiste na vez primeira que me apanhaste em flagrante que confessasse à amante que não a amava e que tudo não passava de um flirt, ameaçaste-me com o divórcio, um divórcio litigioso, acedi, porque receei perder-te e da pior maneira e admirei – o meu egoísmo admirou – o teu amor resistente e apaixonado. Poucos anos haveriam de passar até me traíres tu. Depois disso foi a caminhada juntos e separados, em cada encruzilhada ia cada um para o seu lado. Não sei se me arrependo, se me culpo. Cheguei a uma idade em que não se pode mentir a si próprio. Falhei no amor porque nunca lhe fui leal (devia dizer: vos, a vós), atento, obediente, fiel até ao sacrifício. Não, nunca sacrifiquei as minhas escolhas, os meus gostos, as minhas paixões, a um só amor, a ti mesma. Aos flirts, como lhe chamavas, ainda menos. Somente depois da tua morte fui fiel à Carla, a mais improvável das amantes duradoiras. Caso extraordinário: não o fui nas paixões assolapadas por mulheres que me poderiam ter oferecido um amor seguro, domesticado, fui-o por uma jovem mulher que nada me poderia oferecer e nada me ofereceu! A vida é um enigma. Se fosse filósofo como o velho prof. Ramos diria que não soube decifrar o oráculo da Esfinge de Tebas. Humano, demasiado humano. Pergunto-me se não sou um Édipo – um pequeno Édipo – com um destino traçado. Uma tara herdada. Não tenho filhos. Não a transmiti.


Não lavo as mãos convulsivamente. Verifico duas, três vezes, se a torneira do gás está fechada. Tomo metade de um calmante todas as noites. Assusto-me quando o coração ameaça uma arritmia. Desperto pela manhã com más recordações. Quando uma insónia me assalta em plena madrugada, no silêncio tenebroso da solidão, é a ti que eu vejo ao meu lado. Morta.


DIÁRIO DE CARLOS


20.07.2015


O arquitecto é um artista, não é um industrial mas um artesão no mais genuíno sentido da palavra. O seu traço. O seu desenho, a sua maqueta, são objectos de arte. É um artista plástico, ainda que utilize a máquina do computador. O engenheiro, o engenheiro de pontes, por exemplo, é um técnico, um produtor industrial, raramente é um artista. A racionalidade que utiliza é uma razão instrumental. O seu critério é a eficiência, não é a beleza. Se a ponte que calcula é bela o seu pensamento liberta-se dos tampões da razão instrumental, das limitações que o orçamento e os outros colaboradores lhe impõem, transcende a técnica, é um criador de formas que provocam admiração, surpresa, comoção. É raro. Existem modestas pontes de madeira que são obras de arte, o transeunte sente-se obrigado a parar, a contemplar, como a belíssima ponte que dá o título e é o leit-motiv do inesquecível filme de Clint Eastwood. Tenho visto documentários filmando a construção de grandes pontes, na América do Norte, no Japão, em Portugal, embora não sejam feias de modo nenhum, porém o que admiramos, sobretudo, é a engenharia, a eficácia, a rapidez de construção e a grandiosidade que as tecnologias permitem, a modulação por computadores, o trabalho dos operários. São emblemas da técnica, sofisticados avatares das revoluções industriais. Quantas delas constituem objectos de arte? Para mim a arte distingue-se da técnica, ainda que sem esta não haja arte. A técnica é um saber fazer, a arte é um fazer sentir. A primeira é um objecto de uso, a segunda é um determinado uso de objectos. Normalmente as pontes são sólidas, principal ou mesmo única preocupação, raramente se querem esbeltas, elegantes, provocativas. Eu não sou engenheiro de pontes, sou arquitecto, por isso não me contratam para a construção de pontes, mas para a construção de edifícios. O mérito do Vasconcelos, do chefe do nosso gabinete, foi haver conseguido que o governo regional nos convidasse. O governo central não o teria feito, um consórcio de privados talvez, mas dificilmente, o primeiro quer exclusivamente poupar nos custos, o segundo quer exclusivamente extrair o máximo lucro. A criação de Regiões, de governos regionais eleitos e autónomos foi um grande passo, as comunidades participam, discutem, referendam. O Vasconcelos soube jogar nesse tabuleiro, introduzir-se no jogo, convencer as comunidades. Os engenheiros constroem agora a ponte, nós, os arquitectos, eu especialmente, desenhámo-la. Todos os longos anos em que trabalhei construí casas, não sei se alguma ficará para a história, pontes nunca pensei vir a desenhar. É por essas razões que a minha ponte é minha, o projecto da minha vida. Amo-a como amaria uma mulher, um filho, sem reservas, sem condições. Nunca me tomei como um artista, esta é a minha oportunidade, a primeira e espero que não seja a última.


Quando namorava a Carla pedi-lhe opiniões, sugestões, embora admitisse apenas aquelas que tiveram o meu acordo. A Carla era a espectadora ideal: imaginativa, sensível, intuitiva, sem conhecer escolas e correntes, liberta de preconceitos académicos, quase ingénua na sua inexperiência de vida. E sincera, principalmente sincera. Tenho saudades dela. Daquele olhar limpo, daquelas delicadas mãos que sabiam moldar, construir, corrigir. Sem propensão para teorizar calculo as dificuldades que enfrenta num curso tão teórico como aquele que está a terminar. Quando vejo a ponte a erguer-se dia após dia apetece-me telefonar-lhe, convidá-la, mas não, não me atenderia sequer, cortou toda e qualquer comunicação comigo, eliminou da internet tudo que a comprometesse comigo. Fez-se morrer para mim, matou-me para ela.


Diário de Marta


13.07.2015


Sempre que visito a Gisela na sua campa, para substituir as flores, para rezar por nós ambas, por ela para que possa brincar eternamente no lugar onde estará, por mim para que Aquele que nos observa tenha misericórdia da minha miserável condição, sempre que a visito culpo-me por aquilo que não fiz, censuro-me pelo horror que outro cometeu, choro convulsivamente e lamento não estar ali em vez dela. Regresso ao trabalho e ocupo-me desesperadamente.


……As revoltas, a revolução ou lá o que chamar a estas convulsões que abalam a sociedade toda…A greve geral paralisou ontem o país. As manifestações sucedem-se nas ruas, Lisboa é pandemónio, até esta cidade onde resido não foge à regra geral. Protestam os funcionários do Estado, os operários, os professores e os estudantes, os enfermeiros e os médicos, os motoristas e os agricultores…O governo já não tem mão em nada. E até eu sinto a mesma vontade de gritar qualquer coisa contra qualquer coisa, a mesma que sentia quando era estudante, quando era adolescente, quando saía daquelas aulas do professor Ramos que me deixavam a cabeça a escaldar.


Para onde vai este país não o sei, por agora está na bancarrota. A urgência do hospital funciona porque não brincamos com o serviço. Há dias em que os feridos pelas escaramuças entram em filas ininterruptas, sem nos darem tréguas. Se não vou para a rua gritar, cuido dos que gritam. O mundo está cheio de dor. A dor do mundo não diminui a minha.


No serviço de urgência passam-se noites calmas para iludir as noites em que parece que o mundo desaba todo ali, nas camas a abarrotar, nos gritos lancinantes, nos murmúrios de quem já não tem forças para gritar, nos pedidos urgentes (todos eles têm sempre pedidos urgentes), nas confissões que eles nos fazem como se nós substituíssemos os padres (imploram a Deus mas somos nós que acorremos), naqueles sons inconfundíveis de uma sala de observações: as respirações ofegantes, entrecortadas por silêncios prolongados que nos obriga a olhar para os monitores para ver se mais algum morreu.


Diário do professor Ramos


5.07.2015


Há anos que não pegava no meu diário. Houve um tempo, longo de resto, que escrevinhava furiosamente ao serão, relatando, criticando, analisando, o que sentia, o que observava, a cada dia, um exame de consciência, nem sempre consciente, um julgamento não poucos vezes auto-complacente, raras vezes alegre, frequentemente pessimista e lembro-me que esse hábito, ou vício, começou, se não estou enganado, se a memória não me atraiçoa, durante, ou logo depois, a queda, o desmoronamento do chamado mundo socialista. Se existiam dois mundos, ficou só um, a menos que, afinal, os mundos fossem vários. Não me senti órfão, senti-me desiludido, como se um cansaço indefinível, insidioso, chegasse inexoravelmente após muitos anos de enérgico combate. Não desisti, porém a resistência já não era a mesma, nem no vigor, nem na crença.


Retomo estas páginas do meu diário, desperto o que estava adormecido, provavelmente porque tanto a Marta como o Carlos me confessarem que redigiam os seus diários. Foi aproximadamente com a idade deles que também iniciei o meu, para mais tarde o interromper. A certa altura, creio que foi isso, descobri, ou fizeram-me descobrir, como podem ser comprometedores os diários, sem que necessariamente confessem crimes ou vícios inenarráveis, bastam as confissões, as interrogações, os dilemas do coração ou do espírito, os equívocos que provocam em quem os possa vir a ler. Por isso deixei de escrever e tenciono não repetir. Um diário ou é estritamente confessional, pessoalíssimo portanto, e então deve ser destruído, lançado às chamas no dia seguinte, quando o sol ilumina a consciência, afasta das trevas da noite, ou, então, um diário deveria constituir um verdadeiro exame racional do irracional, um tribunal da razão destemperada, um julgamento das ilusões e das quimeras, a cicatrização das feridas, um triunfo do juízo sobre o desespero.


Esforçar-me-ei para que seja uma arma de combate, mais do que um estado de alma.


O estado em que se encontra o meu país é demasiado grave, o seu destino demasiado imprevisível, para que não me exija uma opinião reflectida. Surpreende-me que ainda há pouco tempo o povo, o chamado povo, se mostrasse tão alheado da política, tão submisso, e que, gradualmente, depois de um primeiro disparo, soltasse o freio, sacudisse as palas, se levantasse como um ginete furioso, mas livre, livre pelo menos para se insurgir. Estou espantado. Nunca se saberá explicar quando uma simples gota de água faz transbordar um copo, como naquelas noites de 1789 em Paris. Um simples gesto de desprezo dos governantes, uma palavra abusiva ou infeliz, um acto repressivo desproporcionado, um imposto que se decreta, um fósforo para cima de um monte de palha? Ou uma combustão lenta que se faz subitamente viva? Um encadeamento de causas?


DIÁRIO DE MARTA


6.07.2015


A última conversa com o professor Ramos fez-me despertar muitas recordações de há vinte anos atrás. Neste instante em que escrevo são 11 horas da noite. Esta semana o trabalho tem sido muito no hospital. Ando estafada. Os choros e os gritos dos doentes, o ruído do trânsito caótico nas ruas e das multidões que regularmente as percorrem aos gritos, já não me excitam os nervos. Há uma espécie de letargia no meu corpo que, todavia, não me impede de ser minuciosa no trabalho. Uma parte de mim cerrou a porta e as janelas. Sou uma casa semi- habitada. Sei que é uma estratégia de auto-defesa, por isso deixo-me andar assim. Há vinte anos era agia rapidamente por intuição ou por instinto. Uma palavra estúpida de um colega, um piropo grosseiro (era habitual o «Ó Marta, dá-me a tua rata!»), deixava-me em fúria, voavam livros e às vezes bofetadas. Era um animal feroz. O meu comportamento irreverente, a minha maneira de vestir, o convívio liberal na associação de estudantes, provocavam nos energúmenos a confusão entre o ser liberal e libertina, os estudantes da Direita eram os piores, armavam-se em machos e não me largavam as canelas, umas bestas.


DIÁRIO do professor Ramos


10.07.2015


Tem sido agradável reencontrar o Carlos e a Marta. Não foram os únicos antigos alunos que me reconhecem e agradecem, de modo nenhum, o que é privilégio, uma gratificação, estes dois, contudo, visitam-me, o que não sucede frequentemente é claro, por vezes alguém me descobre na internet, envia-me um e-mail, ou no facebook, é uma recompensa para mim dos anos duros que também atravessei, encontro-os casualmente aqui ou ali, neste ou naquele emprego, ao balcão de uma loja, numa empresa de informática, ou dizem-me que são professores, advogados, funcionários em Bruxelas…Dá-me um gosto enorme encontrá-los na Festa do Avante! Numa viagem que fiz à Polónia veio cumprimentar-me uma antiga aluna à entrada do campo de concentração de Auschewitz…


O Carlos é um caso à parte. Pertence aquele escasso número dos que me visitam, com quem tomo uma bica e ficamos à conversa e acabamos por consolidar uma amizade agora sem diferenças. Feitas as contas ele deve andar aí pelos quarenta anos de idade, a Marta muito perto disso. A coragem que esta demonstrou ao visitar-me na minha própria casa, depois de um primeiro encontro num centro comercial de Lisboa, deixou-me surpreendido, depois percebi que ela transporta uma insuportável dor, ainda não descortinei a causa, provavelmente não encerrou ainda o luto pelo divórcio – é óbvio que é uma mulher divorciada! - não sei.


DIÁRIO de Carlos


27.07.2015


Já adivinhei que a Marta se encontra com o professor Ramos! Nada perguntarei até ele mesmo mo dizer. Se não mo disse ainda, lá terá as suas razões. Respeito. Quando ele achar que é oportuno um encontro dos três, ele mo dirá.


Ando animado com a construção da minha ponte. Vai-se erguendo como se tratasse do desenho de um Velasquez, de um Goya, fragmento a fragmento, linha após linha, até o objecto a duas dimensões adquirir profundidade e se converter numa coisa viva, que nos contempla.


Diário do professor Ramos


15.07.2015


Agora que estou aposentado, nestes anos sem a adrenalina das aulas com miúdos travessos, acabavam por irem-se aquietando com o decorrer dos meses e do conhecimento recíproco, com raras excepções, nem quero recordar e menos registar aqui os casos mais negros que sofri, que um ou outro me fez sofrer, agora que estou retirado penso ainda mais na minha vida passada do que alguma vez pensei, eu, que sempre fui de cogitações, de exames de consciência, de perfeccionismo moral frequentemente inflexível (há muitos, muitos anos, era ainda um professor noviço, recusei receber em casa um senhor que se apresentou como pai de uma aluna – numa breve troca de palavras pelo intercomunicador do prédio – que me trazia um peru (imagine-se: um peru!) pelo natal, e eu recusei, o ano escolar ainda nem a meio estava, não lhe disse mas pensei «Subornos? Nunca!», era assim, quase intolerante, sem às vezes distinguir o bem intencionado do mal intencionado, mas realmente provoquei situações ingratas que poderia ter facilmente evitado, simplesmente gabava-me a mim próprio de ter a consciência limpa, de sempre respeitar os mais velhos e os mais novos, impacientava-me, tornava-me mesmo irascível quando me dirigiam uma insolência, uma ameaça, era raro, mas sucedia, fui aprendendo alguma coisa, mas pouco, que o temperamento não muda, somente com a velhice o corpo já receia os confrontos físicos, tem que ser, o contrário seria uma perfeita estupidez; agora que me retirei longe dessas lides diárias, para esta casa que o meu corpo mal habita, o silêncio que escorre pelos cantos da casa e da memória - as recordações são sempre silenciosas -, as lembranças assaltam-se sem precisarem de estímulo algum, chegam, plantam-se na memória sem cor e sem ruído, tento afastá-las, arrumá-las nas gavetas, no baú, elas hão-de voltar, insidiosas, contumazes, pintadas de negro e sinistras.






DIÁRIO DE MARTA


29.07.2015


Carpe diem. A convite da Carla, para festejar o aniversário dela, encontrei-me com ela e com uma dúzia de desconhecidos. Jantámos no Parque das Nações, no Rei da Cerveja, creio ser este o nome do restaurante, saíamos de lá já bem bebidos. Já a manhã nascia quando saímos de uma discoteca famosa nas Docas. Não me apercebi de qual dos amigos dela era o seu namorado, se calhar porque eu não parava de beber. Um deles, um rapaz de cabelos negros e barba curta caiu-me no goto. Fez-se a mim com um atrevimento que me seduziu. No dia seguinte, quando os vapores do álcool já se tinham evaporado da minha cabeça, fiquei a pensar nele, mas apercebi-me então que ele largava a Carla para se chegar a mim, largava-me para se chegar à Carla. Enfim, a confusão dos corpos era demasiada para se distinguir fosse o que fosse. Ainda por cima ainda lá estávamos quando soubemos que lá fora andavam indivíduos aos tiros uns aos outros. No regresso a casa deparei-me com carros incendiados e polícias a rodos. Dois dias passaram. O rapaz prometeu telefonar-me. Sinto-me infantil com esta ansiedade pueril. Será que me telefona?






DIÁRIO DO PROFESSOR RAMOS


29.07.2015


Ando ansioso por um telefonema da Marta, os nossos encontros têm sido uma aragem de ar fresco, é encantadora, aquela tristeza cuja causa ela oculta atrai-me, os seus olhos castanhos quentes e doces onde por vezes ainda faísca a rebeldia que a tornava tão singular nos tempos de estudante liceal, aqueles tiques que denunciavam a sua natureza insubmissa, conserva uns lábios carnudos que deveriam ter sido uma delícia para o Carlos de então, não sei a razão porque se separaram, afinal ela tinha tudo para agradar, ele era mais pragmático, distanciava-se dos choques entre pessoas e ideias, uma outra forma de inteligência, menos sonhadora, mais realista. Marta é agora uma mulher madura que nada parece fazer para se tornar sedutora, sensual e, contudo, a mim pelo menos, talvez a outro género de homens não, da idade dela ou mais novos, a mim, contudo, atrai-me. A minha idade abalou-me o atrevimento, a autoconfiança, mesmo assim vou arranjar à vontade para lhe telefonar mais vezes, não estar à espera que ela o faça, afinal sou o homem, tenho de ser eu a tomar a iniciativa, nisso as coisas ainda não mudaram muito por estas terras.


DIÁRIO DE CARLOS


25.08.2015


O Vasconcelos anda muito satisfeito comigo. O negócio da ponte correu bem para o escritório. «Agora é não parar ó Carlos!», disse-me ele com um sorriso de orelha a orelha. Até parece que se esqueceu que estamos numa crise sem fim à vista. O país à deriva e um mercado que anda encolhido e temeroso.


Uma, duas vezes, por semana, visito as obras da ponte, apesar de confiar no engenheiro que é tipo fixe e competente. Gosto de ver as coisas a andarem e ele próprio escuta bem os meus conselhos.


Trabalho duramente, acho que nunca me dediquei tanto como agora. Ando motivado. Cheio de ideias para novos projectos. Trago na cabeça um que me apaixona: o edifício para um Centro de Cultura, o Vasconcelos não me desanimou, «Ó homem, vamos em frente, em frente é que é caminho!». Uma Câmara Municipal propôs-me. O Vasconcelos foi logo lá ao sítio meter uma cunha, contra a minha vontade, mas ele é assim. Vou fazendo esboços. Não quero ver nada de outros para não copiar, copiamos até inconscientemente. Um Centro onde qualquer miúdo possa aprender qualquer que seja a arte: música, dança, teatro, artes plásticas. A Câmara pretendia inicialmente uma finalidade exclusiva: música, criar uma filarmónica juvenil e, claro está, de amadores. Uma boa ideia, porém contrapus que o edifício poderia albergar outras finalidades. Estão a discutir o orçamento. E eu vou sonhando. Tornei-me um sonhador.


À noite contracto prostitutas de luxo, pela internet. Para descarregar o stress. Amantes que me deram cabo da cabeça já tive o suficiente. Estas servem muito bem para as necessidades, sem os custos adicionais de uma amante.














DIÁRIO DE MARTA


2.08.2015


O Nuno telefonou-me! O amigo da Carla. Gastou com certeza um monte de dinheiro, foi longa a conversa. Encadeava assuntos uns nos outros, tem cá um patuá! Espero que não seja desses casanovas de trazer por casa. Não, não parece. Ou sou eu que fantasio? Estarei já a idealizar? Mau sinal. Sinal de que estou a ficar envolvida. Que importa? Carpe diem. Deixei-o falar, gosto do som e do tom da voz dele, entre o atrevido e o ingénuo. Tão jovem…Que verá em mim? Sinto-me alegre, uma alegria de adolescente. Percebo. A vaidade de ainda atrair um jovem. Bem bonito por sinal. Não me importava nada de lhe acariciar aquela barba negra…Que digo? Nem pareço eu. E censurei eu a minha mãe…


DIÁRIO DO PROFESSOR RAMOS


2.08.2015


A Marta não tem dito nada, interrompeu subitamente o contacto, estava sendo regular, de repente desapareceu, estará doente? Vou telefonar-lhe, estava a habituar-me a ela, agora mais do nunca precisava da sua companhia, fui fazer as análises de rotina e o médico encontrou qualquer coisa que não estava bem, franziu a testa, procurou tranquilizar-me mas foi avisando que era melhor um exame mais específico. Se for da próstata, como suspeito, tenho de me sujeitar a um exame que dizem que é brutalmente doloroso. Que grande pôrra. Não é justo para um tipo que atravessou tantas coisas más na vida. Agora que me aposentei para poder gozar de um repouso que nunca tive, vem mais este susto.


DIÁRIO DE CARLOS


30.08.2015


Uma jornalista pediu-me uma entrevista. A minha ponte já começa a dar que falar. É para uma reportagem da RTP sobre novos arquitectos. Eu disse que já não era muito novo, ela riu-se do outro lado da linha, não faz mal, disse ela, novos também porque experimentam coisas diferentes, vanguardistas, a expressão é dela. O Vasconcelos tratou de colocar on-line o meu projecto e acho que falou com uns críticos e outros gajos importantes.


DIÁRIO DE MARTA


8.08.2015


Rejuvenesço. Os versos de amor dos poetas ganham sentido. Posso dizer que é primavera, embora chova lá fora. Posso dizer que um sol me ilumina, embora seja lua cheia. Há quantos anos não sentia este fervor adolescente, a paixão não conhece a maturidade. Quando ela nos alcança nada se repete, tudo equivale à primeira vez. O Nuno é encantador, no sentido literal da palavra: obriga-me a cantar. Na sua companhia desato a palrar como uma criança. Não me surpreende com presentes caros, oferece-me objectos inúteis regateados na feira da Ladra, que me fazem sorrir e humedecer os olhos. Estes olhos que já choraram tanto. Estes olhos que somente viam negrume e desgosto.


DIÁRIO DO PROFESSOR RAMOS


6.08.2015


O medo da morte é a resposta defensiva do meu corpo, corpo animal, corpo água, a parte dele que é a mente, imagina e converte a emoção do medo num pensamento, obscuro, primitivo, irracional, empenho-me no trabalho, diversifico as actividades, arranco com as mãos nuas as ervas daninhas do meu quintal, arranho a terra, e não paro de pensar que a terra comerá os meus ossos, corpo-terra, a finitude, meu horizonte, as insuportáveis dores que hão-de chegar, num dia, numa noite, que ninguém prevê, o médico ainda não se mostra preocupado, porque é meu amigo? eu sim, a morte dos outros é sempre a morte dos outros, a nossa é infinitamente mais consciente.


DIÁRIO DE MARTA


16.08.2015


Faz do meu corpo o que quer. Eu sou sua, sou objecto e sujeito. Desperta-me as sensações mais adormecidas, ignoradas. Regresso aos primórdios da humanidade. Solto-me sem freio, sem vergonha e sem remorso. O meu corpo sofrido é agora espuma, nuvem, nenúfar, taça por onde bebe dos meus sentidos. Tão jovem e tão hábil…A quantas já exerceu a sua antiquíssima medicina? Com quantas aprendeu? Até quando, Nuno, até quando?


DIÁRIO DO PROFESSOR RAMOS


16.08.2015


Não durmo, chamo o sono e ele não vem, deixa-me de olhos abertos na solidão silenciosa de quatro paredes, Quando chegará a notícia? Exames e mais exames, a ansiedade corrói os minutos e as horas, ninguém me acode, ninguém sabe porque a ninguém conto, percorro a pé todos os caminhos do meu lugar, o cérebro esforça-se por instilar coragem ao corpo, mas o corpo é a mente, não são duas forças opostas, é um único organismo dividido, se eu morrer, quando eu morrer, nem uma ruga na pele do mundo, nada verá perturbado o seu curso, nada, não verei o curso da Revolução, não saberei se esta revolta social que abala os alicerces da sociedade se transformará em Revolução, e se esta triunfará sobre a reacção que já se organiza, nasci sob o fascismo, morrerei sob o Novo que se anuncia, e serei um nada, um punhado de moléculas e átomos que se dispersarão sem memórias. Coisa nenhuma.


A espuma das palavras


A babugem do mar


Restos, ruínas, pegadas,


O vento nas dunas a chorar.






DIÁRIO DE MARTA


20.08.2015


Há tanto tempo que não passeava! Não o fazia antes da morte da Gisela, por falta de tempo, de oportunidade, o serviço no hospital e a educação da minha filha ocupavam-me sem folgas, dizendo melhor: folguedos; não o fiz depois da sua morte, este ano e meio que já passou. Faço-o agora, com o Nuno, ele gosta de passear e eu necessito de me distrair das dores que trato no hospital e da dor que me persegue, agora mais calada e contida. O Nuno é jovem, o que quer é borga, boémia, eu sei e aceito, alinho e gosto. Conversas ligeiras e fúteis que me instalam no presente. Deambular pelos Centros Comerciais que antes detestava e que hoje me fazem sentir comum, quero ser comum e vulgar e anónima. Olhar para as montras, entrar nas lojas, imagine-se! Precisamente o que não fazia parte do meu universo…Compro roupas para mim e para ele, ofereço-lhas, visto-o, sem reservas. Eu sei. Pressinto que esta relação é a prazo, um dia destes vai terminar e da pior maneira, mas construo uma cúpula de vidro à minha volta, protectora, transparente, uma doce e suave ilusão. Passeamos, comemos aqui e acolá onde nos apetece, pernoitamos em hotéis e pensões, desde a costa vicentina à Estremadura. Esta semana percorremos São Martinho do Porto, de que tanto gosto, fotografamo-nos defronte da bonita baía, dos barquitos em repouso, hospedámo-nos numa pensão acolhedora, fizemos amor entre brejeirices e fantasias. Em Torres Vedras subimos ao Varatojo, mostrei-lhe o convento de Santo António, que data de 1470,aì soube que nele se recolheram D.João II e D. Leonor, depois da morte do filho, com toda a certeza para sofrerem e fazerem o luto, como os compreendo! Eu que ainda não encerrei o luto pela Gisela…Subimos a seguir a outra colina ao Forte de S. Vicente, e imaginámos (talvez somente eu tenha imaginado, que sabe o Nuno disso?) a batalha fratricida e sangrenta entre os cabralistas e os setembristas em 1846. Descemos, cruzámos a estrada nacional, seguimos por estradas municipais e visitámos os vestígios do castro do Zambujal, do período calcolítico, mais de quatro mil anos nos contemplam aquelas pedras robustas que guardavam a vida quotidiana de uma povoação de artesãos primitivos. Tomámos depois a estrada para Santa Cruz, o oceano, as praias tão arenosas e tão brancas, descalçámo-nos a rir como petizes e atravessámos o arco do penedo do Guincho, as gaivotas em voo rasante aos gritos na sua faina interminável. Que belas são estas praias! Como é agradável calcorreá-las com os pés nus, sentir a viscosidade das algas verdes e espumosas! Regressámos pelas Termas do Vimeiro, percorrendo vagarosamente a estrada que bordeja o rio Alcabrichel.


Uma única mancha nestes passeios, nestas festas de amor: os constantes sms que o Nuno recebe e não comenta comigo, os telefonemas que ele não atende, que finge não ouvir. Pergunto-lhe e ele responde com palavras evasivas, é a minha mãe que não me larga! Diz ele, porém não acredito. Esse algo escondido da vida dele ensombra as horas em que estamos juntos, ensombra as noites em que não estamos juntos. Quem será? O ciúme é um veneno que se toma se quisermos, na dose que a paixão exigir. Felizes dos que não têm ciúmes. O ciúme é um medo. Se nos decidimos por uma relação ocasional, receamos o prazo que ela tem de validade. Se, pelo contrário, queremos uma relação duradoura, tememos a traição.


DIÁRIO DO PROFESSOR RAMOS


20.08.2015


Já as roseiras ganham folhas no meu quintal, emergem os lírios dos tubérculos. a salsa reverdeje jovial, as alfaces tentam os coelhos bravos, as camélias enlouquecem em súbitas labaredas, piso a terra e sinto-me novo, sessenta anos de história que o verão rejuvenesce, acaricio esta e aquela folha, sossego este e aquele caule, pressinto-lhe a seiva, os dias solarengos espantam a humidade nos ossos, fiz as análises de rotina, o que vier a ser é o que será, tive dias em que me senti morto, tive outros em que me senti vivo, chorava com facilidade quando era petiz, desaprendi o choro, chorei por ti quando partiste, chorei por mim porque toda a partida é injusta, para um ou para o outro, sempre injusta, chega o ciúme, abandona-nos o juízo, ontem recordei as minhas primeiras férias ao pé do mar, uma colónia de crianças, um tostão semanal, dava para um gelado, apenas um, um cone ou um barquito de massa com o creme gelado por cima, delicioso, surpreende que algumas lembranças fiquem claras e nítidas para sempre, outras não, desvanecem-se, nem segredos são, apagaram-se por qualquer razão obscura, o meu primeiro beijo, ambos da mesma idade, sete anitos, a exploração dos corpos, tu tens uma coisa que eu não tenho, no jardim largo de uma casa apalaçada, somente esse instante permanece, de nada mais me lembro, vou ao pão a pedido de minha mãe, na estrada um carro da polícia, daqueles antigos de cuja marca e cor já não lembro, talvez mais alguns homens, não sei, e um outro, algemado, riscam-se uns traços a giz no asfalto, oiço conversas dos mirones, aquele homem matou outro, esfaqueou-o por ciumeiras, fiquei com certeza fortemente emocionado, sete anos de idade, um homem matou outro, como é possível? Pura ingenuidade, o Mal é ainda desconhecido, naquela idade faz-se a pergunta capital: porque motivo se mata os homens uns aos outros? Vimos a morte por doença ou acidente, aceitamo-la, o assassínio não, não existia televisão, que revolução mental trouxe ela sobre as crianças? Contavam-nos histórias para crianças de arrepiar, bruxas horríveis, madrastas cruéis, metíamos sustos uns aos outros com visões de fantasmas e mortos vivos, recusávamos passar ao pé de cemitérios, porém o homicídio autêntico impressionou-me, até hoje. O que é o Mal? O filósofo Tomás Hobbes afirmou que no estado de natureza somos egoístas e maus, o homem é o lobo do homem, somente através de um contrato comum decidimos alienar essa liberdade má em favor de regras, a civilização domestica, no sentido literal, dá-nos um lar, uma família, uma propriedade individual, um soberano que proteger-nos-á. Jean- Jacques Rousseau, cem anos mais tarde, recusará esta tese: todo o homem nasce livre e igual em direitos, o selvagem é inocente e bom, não é egoísta mas cooperativo, compassivo e solidário, é a civilização que o perverte, corrompe, transforma-se em hipócrita, astuto, egoísta, cúpido e vaidoso, perde o amor-próprio com que nasce, ou transforma-o em orgulho e o orgulho em crueldade. Para santo Agostinho e para o Génesis nascemos com o estigma do pecado. O pecado do conhecimento? É interessante a volta que o filósofo Bento Espinosa lhe deu: não é o conhecimento que é a fonte dos pecados (isto é, das más paixões), mas a ignorância, essa, sim, fonte do medo e da submissão…


DIÁRIO DO PROFESSOR RAMOS


29.08.2015


Nem tudo o que conhecemos pelos órgãos dos sentidos é uma verdadeiro e todavia sem eles não saberíamos nada, porque foi por eles que começou o conhecimento da humanidade e da criança. Desprezá-los é uma estupidez de ilusionistas; se os sentidos iludem, também o faz o intelecto. Os maiores mentirosos é pela inteligência que mentem. Os maiores erros é pela razão que se cometem. Os sentidos dão-nos das coisas as suas propriedades práticas das quais os homens fizeram bom uso milhares de anos decorridos; é certo que a interferência do sujeito é maior, pois que é o sujeito que sente e percepciona; no entanto não é uma alucinação. Também as imagens e as palavras não nos fornecem a verdade incontestável e, todavia, constituem um testemunho indispensável. De modo que não existiria filosofia e ciência sem uma boa observação sensível e experiencial. A matemática é de todas as ciências a mais credível; porém, não é a única ciência. As partículas da matéria mudam de posição quando as observamos, mas existem apesar disso e vamos conhecendo algumas das suas propriedades fundamentais, delas e não nossas. Não é apenas pelo intelecto que conhecemos a correcção de uma hipótese, a justeza de uma afirmação. Sem cérebro, sem os órgãos dos sentidos, sem observação e experimentação, o intelecto não existia sequer. Existem enunciados falsos e refutáveis, e existem verdades que resistem às refutações. Os povos possuem enunciados empíricos que não sendo verdades absolutas, constituem verdades evidentes. A aspiração a uma linguagem inteiramente lógica, composta por regras consensuais que obrigam a conclusões irrefutáveis, uma linguagem universal cristalina como água pura, é uma antiga e sempre reiterada aspiração; os fracassos dos seus criadores demonstra os limites desse ideal. Quando mais verdadeiro um enunciado, mais abstracto. As operações de pura lógica, os axiomas, as equações, apresentam-se como os enunciados mais verdadeiros que o homem conseguiu; contudo, quantos enunciados abstractos são inúteis ou vazios? A ciência tem sido útil porque (ou quando) nos permite conhecer a realidade objectiva, seja com o apoio das matemáticas, seja através dos instrumentos e outros modelos de análise e quantificação. Não foi uma pura operação lógica que revolucionou o mundo, mas a máquina a vapor. É com uma boa teoria que explica a realidade objectiva que as revoluções se processam. Seja na filosofia, seja na ciência particular. A teoria que está contida na análise minuciosa e até quantificável de «O Capital», de K. Marx, não se organizou com base em puras operações lógicas elaboradas pelo intelecto encerrado num casulo de abstracções, mas demonstrando que o mais verdadeiro e importante está encerrado, mistificado, no trabalho abstracto, no trabalho socialmente necessário. O dinheiro e a mercadoria abandonaram a sua abstracção mistificadora para aparecerem em toda a sua nudez crua e bruta de exploração. Eis uma boa teoria que transformou a maneira de ver o que é a economia política.


(Vivi dezenas de anos a proferir palavras. A ensinar palavras. Quantas delas se revelaram ocas quando as novas descobertas as demoliram, sem estrondo de resto? Chegavam de quando em vez novas teorias, novos nomes, novas modas e não foram poucos aqueles que continuavam tranquilamente a ensinar as antigas. Modelos que explicavam o funcionamento do cérebro e que faliram, modelos que explicavam a aprendizagem e que caíram em desuso. Vivi anos a ensinar a desaprender.)


DIÁRIO DE MARTA


6.09.2015






Eu pressentia que alguém se interpunha entre nós. O Nuno é afinal um jovenzito que, por mais astucioso que consiga ser, não engana sempre, a paixão é cegueira, mas não é estupidez, pelo contrário aguça os sistemas de alarme, espicaça a curiosidade, orienta a atenção para os mínimos pormenores. Os seus olhares distraídos, as mensagens que recebe e não explica, os telefonemas que faço e que ele não atende, os atrasos frequentes aos encontros, una aromas estranhos que emana da sua pele, tão estranhos como perfumes femininos que bem conheço…O Nuno atraiçoa-me. Com quem ainda não descobri. Tudo começou com uma ligeira desconfiança, hoje é uma certeza. Confrontei-o, não se retratou. Explicações evasivas. O ciúme insinua-se como um tóxico, não permitirei que me domine, não permitirei que me faça regredir ao negro e pesado luto donde talvez não haja saído ainda. Darei a volta por cima. Ter um namorado, ao fim de tanto tempo de solidão e desleixo por mim mesma, serviu-me para alguma coisa. Sim. Rejuvenesceu-me. Deu-me alento e amor-próprio. Voltei a sentir-me mulher. Atraiçoa-me mas não alimento vinganças. Talvez não devesse sequer importar-me em saber quem é a outra, mas não resisto a decifrar o enigma. Mais nova, da minha idade? Provavelmente mais nova, provavelmente uma antiga namorada, provavelmente alguém que não saiba que também é atraiçoada. O erro foi meu, mas não me arrependo. Volto a ficar sozinha. Não respondo aos seus telefonemas. Não o quero ver. Não me quero sujeitar à humilhação de acreditar de novo numa mentira. Necessito de sair para fora de mim, de distrair. Não é de desabafar que preciso, não contarei a ninguém. Todo o mundo anda a atraiçoar todo o mundo. Não vale a pena narrar uma traição a quem com certeza também foi atraiçoado. Corta-se a corrente e silencia-se. A bem dizer não o amei. Apaixonei-me. Uma mulher que perdeu uma filha há pouco mais de um ano, que odeia o ex-marido, não pode voltara amar tão depressa e tão facilmente.


Ou estou apenas a enganar-me a mim própria? A racionalizar? Sinto ainda o cheiro de macho no meu corpo, as suas coxas viris a abrirem caminho entre as minhas, as suas erecções rápidas quando a minha mão descia e acariciava…Porque tento enganar-me se na verdade o meu corpo a todo o instante se recorda?


DIÁRIO DO PROFESSOR RAMOS


5.10.2015


Fenece o verão devagarinho, o céu não canta louvores ao Senhor, as andorinhas pressentem que os dias da sua viagem de emigrantes eternos se aproximam, sempre os mesmos casais, sempre os mesmos ninhos, perpétua repetição da natureza, quantos enigmas no instinto dos animais, buscamos enigmas nas palavras quando há outros à frente dos nossos olhos, não os apreciamos, o que dizemos captura-nos, eu disse “Chegou a primavera!”, o nome é um signo convencional, outras línguas outros signos, porém o que observo é idêntico, ainda que a paisagem seja diferente, o ciclo repete-se, sejam embora diferentes os significados o sentido é similar, as roseiras ganham folhas, os botões fechados, adormecidos, incham grávidos da flor que desponta, a morte do botão é a vida da flor, o processo é interminável, das sementes que a flor morta abandonou brotará a mesma espécie, é a lógica da vida, uma lógica objectiva que rege os processos naturais, quer eles sejam completamente diferentes ou não, a lógica que rege a linguagem sobre jaz a outras lógicas naturais, mais determinantes, imutáveis a não ser que o ambiente as destrua, extingam-se todas as rosas, permanecerão outras espécies de flores, porque razão a lógica da linguagem humana haverá de preencher toda a filosofia, as linguagens da natureza são tantas e várias…Reduzir-se-ão todas à mesma linguagem, à mesma lógica? «Deus ou a Natureza», Espinosa resumiu numa fórmula o Todo. Soubesse ele que nem o Todo é eterno, que o que perpetuamente se repete não se repete sempre da mesma maneira, que o que é agora nem sempre o foi, a certa altura não existiu, a certa altura deixará de existir.


(Escuto o Concerto para piano nº1, de Tchaikovsky, e penso que o mundo e a vida têm múltiplos significados e nenhum sentido. Os significados somos nós que emprestamos. Não vejo a Marta há meses. Porque atribuo tanto significado à Marta? Pelos seus olhos castanhos e húmidos, pela sua voz entrecortada de pausas e silêncios? A morte de uma filha: que dor insuportável!)


DIÁRIO DE MARTA


10.09.2015


Ciúme. Que fazer deste ciúme? Moê-lo, remoê-lo? Obcecada com as lembranças? Remoer as lembranças não faço farinha nenhuma. Não crio nada que não seja a dor, pura perda de tempo, puro masoquismo. Lembrar as suas carícias, as suas palavras, as fantasias, o seu corpo, adjectivá-lo? Para quê, porquê? Nem as suas palavras eram profundas, nem a superfície do seu corpo era singular, não foi o primeiro, não será o último. Vingar-me? Em quem? nele, em mim? Não me seduziu, deixei-me seduzir, não me encontrou, fui eu que o achei. Nem o perdi. Nunca tinha sido meu. Estou furiosa, e nem sei porquê. Não é ele tão importante assim que mereça destruir-me. Ou destrui-lo. Ninguém merece que se morra por amor. Só nos filmes. E esses só me comovem quando o objecto de amor morreu sem culpa formada. Como a minha filha Gisela. Era eu que devia estar naquele carro, era eu que devia ter morrido no acidente, não ela. Porém, continuo a viver, a resistir, há em mim uma força bruta que me obriga a sobreviver. Este mau bocado há-de passar. Esta dor é infinitamente menor do que a da perda da Gisela. Por ele não tive amor, tive paixão. Caprichosa, evasiva, fútil, passageira. Vai passar.


Com quem me atraiçoou? Vou encontrar-me com a Clara. Ela conhece o Nuno, foi através dela que o conheci.


(Teve outra utilidade esta relação: esqueci-me, entretanto, do meu ex marido. Completamente. Se o ódio se conservasse á superfície, não me esquecia dele. Quero é que ele se vá lixar. Que me deixe viver. Sobreviver. Que não me telefone mais. Que desapareça.)


DIÁRIO DE MARTA


18.09.2015


O encontro com a Carla foi prolongado. Jantámos no Centro Comercial do Monumental, fomos a seguir ao cinema. Foi fácil e rápido esclarecer o mistério. Não lhe confessei evidentemente o meu enlace com o Nuno, nem, sobretudo, o desenlace. Bastou-me perguntar se ela namorava e, depois, com quem. Como de nada suspeitava em relação a mim, confidenciou-me o que as mulheres confidenciam às outras com boa vontade. Namorava com o Nuno! Claro, já adivinhava. O que não adivinhava era o resto: que ela acabara de com a relação. Porquê? Porque descobriu que ele a atraiçoava. Com quem? Não sabe. Não sabe e não lhe importa saber. Conjectura que será provavelmente com uma colega de ambos, do curso, uma tal Susana, com quem ele se entretém demasiado…De mim, nem a mais leve suspeita.


Aqui está a verdade nua e crua. Tão parva fui eu como a Carla. Arquitectámos uma armadilha para o gajo cair. Uma pequena vingança, para ele aprender. Contudo, quando nos despedimos, já a noite ia alta, desistimos da ideia. Não vale a pena. Desmascará-lo como? No fundo, é um gajo como os outros. Saltita de flor em flor como as abelhas. Um dom João de pacotilha. A receita do costume. Parece que agora há mais iguais a ele. Culpam as mulheres, cada vez mais atiradiças, mais bonitas; nós culpamo-los a eles. Sinal dos tempos. No fundo, são uns fracos.


Sinto saudades do professor Ramos. Firme na sua solidão voluntária. Ouvinte e conselheiro excepcional. Na verdade, não dá conselhos, nem profere lições. Narra as suas experiências de tal modo que as faz assemelhar-se às dos outros. Gosto dos seus olhos cheios de meiguice. Alguma vez fez mal a alguém? Provavelmente, quem não fez? Mas sem maldade, seguramente sem maldade. Quantas mulheres amou? Muitas, certamente. Alguma mais do que as outras? Talvez, sucede com quase todos nós. Terá saudades minhas?


Da conversa com a Carla, mais espantoso do que ser também vítima do mesmo traiçoeiro, mais espantosa do que essa confissão 8que nos aproximou ainda mais) foi a confidência, quase despropositada, de que namorara com o Carlos. Exactamente: o meu antigo namorado do liceu! Espevitou-me a curiosidade: fiz-lhe contar tudo sobre quem era esse Carlos, como era, onde parava. Aí não resisti a contar-lhe a minha vida passada com o Carlos, há vinte anos. Ficou boquiaberta, este mundo é pequeno. E se nos encontrássemos os três? Desafiei-a. Que não, o Carlos suscitava nela sentimentos confusos, fortes, que não compreendia, nem dominava. Foi o primeiro homem com quem foi para a cama, o seu primeiro amor sério, ou a sério. Não, era melhor não. Ensinara-lhe tudo o que ela quis aprender.


Depois disto gostava de reconhecer esse Carlos que também foi o meu primeiro amor. Mudou ou é o mesmo?






DIÁRIO DO PROFESSOR RAMOS


15.10.2015


Lá fora a revolução continua, nas ruas, nas fábricas, nas praças, no parlamento, nas assembleias, nas rádios e televisões, são greves que se sucedem umas às outras, na administração pública, nos aeroportos, nos caminhos de ferro, nas camionagens, nas empresas, nas oficinas, são protestos e reclamações, são gritos e cânticos de guerra e de união, são discursos inflamados que mobilizam multidões, são deputados que se agridem nas sessões, são polícias que agridem nos passeios, são bandeiras que se agitam, são lenços que se agitam das janelas e das varandas quando o povo passa…É agora! Afirmam, Basta! Garantem, A rua é do povo! Exigem. Os de baixo já não suportam os de cima. O poder está dividido. O Poder, esse supremo fim das revoluções.


Eu sinto-me cada vez mais doente. A revolução dá-me forças, o corpo tira-mas. Irei morrer sem ver o seu desfecho?


A vida é uma longa aprendizagem para a morte, disse alguém. Não o aprovo. O sábio pensa mais na vida do que na morte. Tive várias mortes na minha vida. Quando esta vier, eu já cá não estou. O que ainda não é, é mais potente do que aquilo que é. É esse ainda-não que é verdadeiramente a potência da vida. O admirável está no Novo, que percorre e procria todas as formas da mudança e da diferença.






DIÁRIO DE CARLOS


15.10.2015


Projectos. O projecto da ponte, o projecto do Centro de Cultura. A ponte já quase está erguida, menina dos meus olhos. O segundo projecto está quase terminado. Não sou um espírito analítico, ou vejo a coisa toda inteira duma só vez, ou recomeço. Não me serve de nada caminhar por etapas, a pensar em cada uma por sua vez. Ou sai o todo, ou ando meses a pensar nele. O Centro de Cultura brotou da minha cabeça como Vénus da coxa do Pai. Gostei. Se os outros não gostarem, paciência. Passei metade da vida a construir casas ao gosto do freguês. Mercadoria. Vendo-me por um salário (enfim, não é nada mau), produza um projecto que a firma e o freguês encomendam, submeti-me sempre ao interesse da firma e ao gosto do comprador. Produzi, não criei. Vendi-me, não sou livre. Quinze anos de rotinas. A ouvir o Vasconcelos «Faz assim!». A ouvir o freguês «Quero assado!». O prestígio que granjeei , qualquer que seja o mérito, é uma treta: foi muito maior o desprazer em produzir do que o prazer. Somente a ponte que projectei e vejo a erguer-se me apaixonou. As paixões nunca foram o meu forte e, por isso, nunca foram a minha fraqueza. A minha vida foi um sucedâneo de acontecimentos sem significado. Transcendente, pelo menos. Nem profundo, nem transcendente. Elos de uma cadeia de factos: chega uma encomenda ou uma oportunidade – mais um encargo que oportunidade – e cumpro (raramente dentro dos prazos). A pequena ponte, modesta na sua dimensão, sem a grandiosidade das pontes que atravessam os grandes rios, ao contrário de centenas de moradias, mobilizou e despertou as energias mais adormecidas, que eu nem acreditava que possuísse.


Ambiciono fazer do projecto do Centro de Cultura uma obra igual ou maior. Imagino-o como um pólo atractor, uma fonte de dinamismo, de convívio comunitário e criador, uma escola de aprendizagens várias, que desenvolverão os gostos, o carácter, a personalidade de inumeráveis crianças e jovens. Se ainda estiver vivo quero vê-las entrar apressadas e a saírem felizes. É o meu contributo cívico. Nunca fiz nada que tal merecesse. Nunca pertenci a um partido, nunca ingressei em movimento algum, nunca dei um pataco a nenhuma causa, nunca chorei uma lágrima de comoção ou de compaixão. Tudo me era indiferente. Jamais, ou quase, seduzi uma mulher com as artimanhas do costume, sempre achei uma perda de tempo, deixei-me seduzir e apenas quando quis. Foram-se embora, deixá-las ir. A bem dizer nem sequer amei a mulher com quem estive casado quinze anos. Gostei dela, é tudo. Tive amantes ocasionais, nunca pedi perdão por isso. Quando ela passou a imitar-me, achei justo, estávamos quites. Se ela o fez por vingança não me apeteceu pensar nisso. Nunca tivemos filhos para haver dramas.


Ganhei bom dinheiro, gastei-o como e quando quis. Todo. Chapa ganha, chapa gasta. Bares e restaurantes caros, bons hotéis para uma noite de sexo, nem frio nem ardente.


Subitamente despertei da letargia. Não foi a morte da mulher (ou foi?), talvez fosse o projecto da ponte, o projecto do Centro de Cultura para crianças desprotegidas. Talvez. Ou talvez, antes disso, a relação com a Carla. Iniciar uma jovem mulher fez-me sentir um Pigmaleão, a tal peça do Bernard Shaw. Como se desejasse ser melhor do que eu era efectivamente; e ao tentá-lo, ficar e ser realmente melhor. Encontrei-me? Não sei. Encontrei através dela a minha juventude. Capaz novamente de sonhar. De acreditar. A partida dela não foi um fracasso, um desastre, uma derrota. Foi um fim de um ciclo.


DIÁRIO DE MARTA


20.09.2015


Sei onde poderia contactar com o Carlos, a Carla informou-me, esteve a prestar um trabalho ocasional na firma de arquitectos; foi aí, de resto, que o conheceu. Não me sinto ainda capaz de o procurar. Um destes dias em que esteja cheia de energia, optimismo, coragem. Aliás, se ele estivesse muito interessado já me teria encontrado no hospital onde trabalho, bastaria telefonar para lá a perguntar por mim. Bem bom seria, ajudar-me-ia a esquecer o Nuno, o apelo da carne ainda é muito forte, mais forte ainda a traição que me aplicou. Adiante.


DIÁRIO DE MARTA


15.10.2015


Fiz ontem uma visita ao professor Ramos. Encontrei-o adoentado, enfraquecido. Evitou propositadamente explicar-me o que se passava com saúde dele; apesar disso, pôs-me tão à vontade que acabei por confessar-lhe o fracasso da minha relação com o Nuno, que ele, evidentemente, não conhece. Não me deu conselhos como é seu costume, narrou, antes, alguns acontecimentos amorosos funestos da sua vida, com distanciamento e sem amarguras. Factos, são factos, rematou. Não vale a pena chorar sobre o leite derramado. Muito embora hajam relações amorosas que se reatam, a regra geral é que quando chegam ao fim não há nada a fazer. É necessário conservar a lucidez suficiente para nos apercebermos de a coisa chegou ao seu termo, sem remédio. A tentação comum é substituir um parceiro por outro, com excepção daqueles que passam o resto da vida a bater com a cabeça nas paredes. Conservar a cabeça para entender a tempo, antes de cometer asneiras, que a oportunidade passou, que a experiência findou, que a luta pela reconquista não vale sequer o esforço.


(Os avanços inexoráveis da velhice que observo nele, obrigam-me a pensar que também eu já não sou nova. A juventude passou irremediavelmente. Que loucura me fez envolver numa relação com um homem que quase podia ser meu filho? Enquanto o professor falava eu ia pensando em como ele daria um companheiro adequado. Assim eu o houvesse procurado uns anos atrás…)


DIÁRIO DE CARLOS


20.10.2015


O meu projecto para o Centro de Cultura foi aprovado pelo Governo Regional (a Câmara Municipal preferiu que fosse ele a assumir os encargos). Não ser, assim, propriedade municipal, mas regional. Obrigou-me, tal transferência, a algumas alterações, será maior para albergar maior número de utentes e de valências. Ficará implantado num vasto espaço público, um espelho de água, arvoredo, canteiros, bancos para os mais idosos e para os casais.


A convulsão social continua. Instalou-se a anarquia. Desejo ardentemente que ninguém se lembre, nesta confusão sem controlo, de praticar estragos na minha ponte. Por ora, verifico com prazer que ela não é utilizada somente para trânsito, também pares de namorados escolhem-na para os seus idílios, e já observei até uma sessão de fotografia de um casamento, ali mesmo, por debaixo das abóbadas da ponte, todos felizes e contentes.


Vou visitar o professor Ramos. Desconfio que anda doente.


DIÁRIO DO PROFESSOR RAMOS


21.10.2015


Recebi as visitas da Marta e do Carlos. Decidi juntá-los em minha casa, por isso vou convidar ambos para o mesmo dia e hora, sem lhes comunicar a intenção. A minha doença agrava-se. Não tenho ninguém a quem deixar as minhas parcas heranças. Talvez venham a ser eles os meus herdeiros.


Gostava de ter saúde para participar nas lutas sociais que se desenrolam. Às vezes meto-me no carro e vou assistir. Por enquanto não vislumbro uma firme condução das lutas, parece, pelo contrário, uma absoluta anarquia. As forças repressivas do governo não parecem controlar já a situação. Alguns poderosos já se pisgaram para o estrangeiro, os grandes dão à sola. Sinal de que isto está por pouco. Quanto mais dinheiro sacam do país, quanto menos investem, tanto mais sobem os juros dos credores internacionais. O país não vale um pataco nas bolsas mundiais (que é o que são na verdade os mercados financeiros, bolsas e especulação). As últimas notícias dão conta de que Bruxelas, a União Europeia, já não injecta mais dinheiro em Portugal, tão avassaladores são os problemas que apoquentam outros países. Mais importantes e nevrálgicos do que este pedaço de terra que ninguém quer a não ser para turismo.


DIÁRIO DE CARLOS


30.11.2015


Encontrei finalmente a Marta. Por acaso ou não, estava na casa do professor Ramos quando lá fui ontem. Está bonita, madura, menos rebelde do que era, menos inquieta, mais serena, embora com alguma ponta de tristeza mal disfarçada no seu olhar limpo. Saímos juntos. Escolhi um bom e retirado restaurante na Praia Azul, bem perto da residência dela. Conversámos sobre o presente. Na próxima vez conversaremos sobre o passado. Fiquei comovido, o que não é costume em mim, o inefável indiferente…


DIÁRIO DE MARTA


30.11.2015


Reencontrei o Carlos! Que homem bonito se fez! Contido nas palavras, mas nada pobre de inteligência. Transmitia tranquilidade. Igual a si próprio, sempre assim o conheci. Quando me separei dele há vinte anos reagiu exactamente desse modo. Recordo bem as últimas palavras dele: “Ok, fica bem, e fazes o favor de ser feliz!”. Nunca mais me procurou. Vinte anos. Uma vida. Que bom foi encontrá-lo, até que enfim!






EPÍLOGO OU PÓSFÁCIO


Tenho vinte anos, sou filho do Carlos e da Marta. Encontrei estes diários. A minha mãe autorizou a sua publicação, que achei oportuna. O professor Ramos já faleceu há muito tempo, pouco depois do reencontro dos meus pais. O meu pai morreu recentemente.


A anarquia transformou-se em revolução. Os costumes hoje são completamente diferentes, as tecnologias trouxeram-nos imensos benefícios, bem distribuídos por todos. Não existe mais, aqui, entre nós, miséria, pobreza, doenças que não são tratadas, ignorância endémica, desemprego. O bem-estar é geral e uniforme. Não garante a felicidade individual automaticamente, mas proporciona igualdade de condições e oportunidades.


A Ponte do meu pai ainda lá está, guardada e tratada com desvelo e carinho. A sua obra-prima, todavia, é o Centro de Cultura. Foi nele que aprendi as artes que cultivo. Nele revejo os sonhos de Carlos. Na ponte, revejo o amor entre os meus pais.


Tornar públicas estas intimidades dos meus pais não é vergonha nenhuma. Não sei se o meu pai, com o seu temperamento especial, me autorizaria tal atrevimento, mas ele já não está cá, e nada do que aqui ele diz de si próprio ou de outros é feio e humilhante. São retratos de seres humanos que resistiram às amarguras sem permitirem que o desespero os aniquilasse. Se alguns leitores, homens e mulheres, identificarem nestas páginas íntimas as suas dores e as suas alegrias, o valor delas está preservado.


No fim de contas, caro leitor, isto não é nada mais do que ficção…


FIM